Sexta-Feira, 17.01.2020

Blog André Luis Alvez

Terça-Feira 20.11.2018 às 10:21

Um conto de bichos

André Alvez

De repente a floresta ardeu em chamas.
Os bichos, aturdidos, não sabiam o que fazer.
Em meio à áspera nuvem de fumaça, surgiu um belo passarinho carregando um pouco de água no bico. Corajosamente sobrevoou o foco do incêndio e lá atirou as gotas de água que conseguiu ajuntar.
O macaco sorriu, apontou para o passarinho: “sai daí bicho estúpido, você jamais conseguirá apagar o incêndio”.
O passarinho, que sabia falar a língua dos macacos, respondeu: “sei que não apagarei o incêndio, mas estou fazendo a minha parte”.
Os outros bichos se entreolharam, surpresos.
Deu-se um ameaçador silêncio, nem mesmo as hienas foram capazes de sorrir.
O rei Leão resolveu agir, fazer valer sua liderança, ordenou que o elefante enchesse a tromba de água e ajudasse o corajoso passarinho.
Um tanto contrariado, resmungando que outros poderiam ajudar de alguma forma, o elefante caminhou até o rio e encheu o quanto pode de água a tromba.
O leão pensou dar ordens ao jacaré, um pensamento corrido, talvez com uma boca tão grande, poderia enchê-la de água e ajudar o elefante e o corajoso passarinho.
Mas o jacaré fechou os olhos e mergulhou na água profunda. Ali estava livre do perigo das chamas e disso sabia muito bem.
O fogo aumentou, o passarinho continuou fazendo sua parte enquanto o elefante desistiu na terceira tentativa. Quando os bichos esperavam pelo pior, quando o calor das chamas já chamuscava todos os pelos, detrás do sol partiu uma imensa nuvem negra de chuva.
E o temporal desabou em poucos minutos, apagando o incêndio.
Depois de horas, o incêndio já não existia, apenas o cheiro de queimado insistia a pairar pelo ar.
Assim que tudo se acalmou, entre lágrimas incessantes, a raposa trouxe entre suas patas o corpo ainda fumegante do passarinho.
O leão se aproximou, fez um gesto de carinho na cabeça do passarinho e logo depois o devorou.
“Nunca confiei nas raposas."
Disse entre dois arrotos com gosto de carne explodindo. Depois estalou os dedos:
- Não existe nada mais gostoso do que passarinho assado”.
E a vida voltou ao normal na floresta.

Terça-Feira 30.10.2018 às 09:50

O admirável campo dos girassóis

André Alvez

GIRASSÓIS.jpg

A luz dos meus olhos falhos,  assoberbados pela tristeza, escala um resto da estrada desviada; pegadas marcantes, rastros nítidos, a cabeça baixa, contando o que sobrou.
A tempestade se formou bem antes, mas pensamos que sequer choveria.
Sobra a brisa quente do vento e o buraco oco no qual a água da chuva balança, como um tremor.
Sinto o bafo quente da melancolia e quase choro.
O meu ideal seria escrever sobre flores, mas qual flor se pode desenhar nesse momento tão amargo?
Pensei na rosa, mas a rosa é meiga, não traduz o lamento em forma de chama sem pavio.
Em momentos assim, permito a estranheza de perfumes me conduzir a lugares distantes.
Perto da grande cidade, existe um enorme campo de girassóis. Muitas pessoas já foram lá e eu, incorrigível preguiçoso, fui adiando a viagem.
Fecho os olhos e imagino o lugar...
Logo, dou de frente com o admirável campo dos girassóis, o verde e o amarelo espalhados a cada palmo de terra. Uma senhora do semblante faceiro acena para mim e devolvo o sorriso da cor dos seus cabelos de algodão.
Para onde o sol obriga que os olhos dos girassóis se encaminhem?
Após alguns passos, um homem do campo caminha carregando pela rédea o velho cavalo, passa por mim num aceno de puxar a ponta do chapéu.
Será que ele sabe a novidade?
Pressinto num respirar a resposta, ainda tenho boca para sentir e olhos para comer: o pasto por onde cavalgam os girassóis é admirável, é um novo lugar.
Vou tirar uma foto e ir embora depressa – penso – mas não me agrada a ideia de juntar minha imagem a uma flor,sou bruto, nada fotogênico, o rosto grande demais para caber engalfinhado às pétalas dos girassóis.
Aqui dentro terra batida, lá fora a febril oração: Nietzsche errou, a arca de Noé se move acelerada, mostrando a inquietante verdade: Deus está mais vivo do que nunca.
O sol ordena, o girassol nem se espanta, prossegue cego, singrando a terra, embora os calos nas mãos resmunguem que é preciso dar muito mais do que receber.
A página atual não tem cheiro, mas quando esmurrada, se transforma em perfume francês.
Um grupo de jovens passa por mim – eles não sabem o que eu sei –, os braços erguidos para cima, seus olhos de escuridão não percebem que a iracunda engrenagem, aos poucos, será tomada pela ferrugem do novo.
Numa visão turva, eu vi a fome em meio a plantação e larguei no ar um suspiro de lamento, serão quatro as estações ouvindo este prolongado eco do trovão.
O calor insuportável de fim de tarde me sufoca, enquanto os vitoriosos se afastam, sem perceber que os raios do sol podem matar.
Na fineza dos detalhes, observo - escondido em algumas pétalas amarelas - besouros dos chifres pontiagudos e um estranho brilho de seda nos cascos escuros.
Nesse calor insuportável, é preciso desatar o nó que não tem ponta. Abraço a esperança: se um dia lá atrás, resistimos sem medo, novamente assim haverá de ser.
No momento de abrir os olhos e ir embora, ouço com nitidez o resistente som das flores diferentes, elas me prendem um pouco mais, seguram firmes as minhas mãos, o verde musgo desprendendo do caule, envergando o pé da planta.
Sinto um sufoco de nó de gravata, o calor faz escorrer pela minha testa o suor quente, mesmo que eu ande descamisado e sem nenhuma gravata.
Tentando se achar, o dia se fecha no horizonte e um desejo final me ocorre: se o ar não nos sufocar, nascerão nesse mesmo chão, outros girassóis e deles desprenderão raízes que escalarão os muros, até dar com as vistas numa longa campina, desprezando a quentura do sol.
Abro os olhos e enfrento o início da escuridão, somente as flores diferentes na retina, aos poucos escalando o muro, desviando dos espinhos, seguindo o voar rouco dos inquietantes pirilampos a iluminar o caminho.

Terça-Feira 29.05.2018 às 10:21

O vento assopra o tempo

André Alvez

Tenho uma relação muita próxima com o tempo, como se ele fosse aquele amigo inseparável, do tipo briguento, invisível, porém presente, parceiro, quase inseparável. Penso que o vento conduz o tempo, passa assoprando, trazendo tudo de volta. Gosto de me definir como cronista, porque é na crônica que posso evocar a presença desse amigo antigo. E ele chega de repente, montado na brisa e basta fechar os olhos para enxergá-lo melhor. O tempo não precisa de luz, precisa de sentimento. Já perdi a conta das peças causadas por esse amigo em forma de dúvidas sem fim: como era o nome daquele professor de geografia? Qual cemitério está enterrada a Aparecida? A Maria sem troco era de Coxim? Tento escrever algo sobre coisas atuais, dessa briga insana que vemos sempre no noticiário, dar minha opinião sobre algum assunto importante. Fico postado diante do espelho, recolhendo ideias, me transformo num repórter da TV, daqueles antigos, cabelo engomado, terno, lenço na lapela.Ameaço a imagem: não me venha com perguntas difíceis, nada responderei de concreto, algo do tipo: “o que você acha do aborto?”, não tenho opinião formada, às vezes penso que sim, às vezes acho que não.   Maria sem troco era de Rochedo, assopra o vento no meu ouvido. Ontem já é passado, mas é apenas um ventinho, posso apanhá-lo pela mão, até o exato instante que me aproximei do sujeito barbudo na prateleira do mercado. Pena, não posso mais comer marron glacé, mas o barbudo pode, ele apanha logo duas latas, joga no carrinho e sai assoviando uma antiga canção. Que canção é aquela? Apanho o doce de banana sem açúcar e sorrio da minha desdita: onde já se viu doce sem açúcar? Aparecida morreu de AIDS, tinha só trinta anos e eu ainda me recordo com exatidão da sua risada, do brilho dos cabelos - negros como a noite sem luar - e da vez que ela saiu em desabalada carreira após confessar que gostava de mim. Tínhamos apenas doze anos e nos bastava a inocência do sorriso. Saudades. Vamos tempo, dê um tempo, me deixe falar sobre coisas atuais: sensacional o cara que inventou o pen-drive.  Certamente é japonês o fabuloso inventor. O mundo pode ser guardado num pen-drive e tenho absoluta certeza que outro japonês genial irá inventar algo ainda mais incrível, talvez uma tela diante dos olhos, daquelas com cortinas se abrindo ao simples digitar de uma senha, mostrando o mundo paralelo; por lá, surgem pessoas queridas que já morreram, caminhando sem perigo, sorrindo, armadas de um leve aceno, passeio sem voz - as paredes que separam as dimensões impedem a propagação do som - numa espécie de paraíso. Pensando bem, não seria tão genial assim, alguém iria propor quebrar todas as regras, abrir passagem a tiros de metralhadora, afinal, menos os pecadores, todos temos o direito de morar no paraíso. Não existe pecado na mente de cada um.  O vento sopra, o tempo me alerta, talvez a tal cortina pudesse mostrar o passado... Seria maravilhoso, mas não quero mesmo falar do passado, mesmo agora que me recordei da canção assoviada pelo barbudo, não lembro o nome, mas sei que é do Guilherme Arantes.  Como envelheceu o Guilherme Arantes! Agora, parece um senhor. Ah, mas que bobagem, me alerta o vento, ele é de fato um senhor, tem quase setenta anos, embora o tempo insista sopra na minha cabeça a imagem dele ainda moço, cabelos encaracolados jogados ao vento, tocando piano e cantando “Planeta água”. Tempo, você é tão cruel... Algo atual me ocorre, mas me calo, evito comentar sobre as reuniões familiares, na verdade, um encontro de tablets e smartfones.  Então apago tudo e fico prestando atenção na porta que dá acesso à varanda, lá fora o vento sopra livremente e eu sei sobre o tempo, sobre o vento, alguma coisa da brisa, mas nada sei sobre o suspiro, esse que escapou agora da minha alma; dor aguda, saudades do ontem. Sou salvo pelo canto do pássaro lá de fora, calando a voz do vento e devorando o passado.

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