Quarta-Feira,, 05.08.2020

Blog André Luis Alvez

Domingo 19.04.2020 às 11:18

Cenas do bar - Deus, o baseado e eu.

André Alvez


Meu nome é Vladimir de La Mancha e só tenho medo de dentista.
Recentemente, por causa do confinamento, descobri que solidão é um bicho maldito. Andei caçando coisas para fazer aqui no apê e até descobri cinco ou seis baseados antigos, enrolado num papel reciclável, guardados no vão do colchão.
O troço é da hora, extremamente relaxante e das asas leves como plumas. Mas fez bater uma pequena insônia, talvez fruto do medo da solidão. Ah, para com isso, eu só tenho medo de dentistas.
Onde deixei o vidro de rivotril?
Tinha um resto e eu precisava tomar. Ou será que já tinha tomado antes de deitar?
Fiquei buscando imagens, tentando dormir, pensei numa moça que vi usando máscara vermelha, passeando pela calçada sem se preocupar com os meus olhos de lince. Parece a Joana Prado, a Feiticeira, uma mulher linda do passado que usava máscara num programa de tevê.
Bons tempos.
Adormeci levemente e acordei num repente, um barulho de coisas se mexendo. Como a diarista não está vindo e eu sofro do mal da preguiça, o apartamento está uma bagunça, com restos de pizzas pelos cantos.
Tenho me alimentado mal, geralmente restos de pizza e vinho morno, amanhecido fora da geladeira.
O barulho prosseguiu e pensei na morte. Pensar positivo é sempre importante nessas horas: deve ser um rato.
Semana passada armei uma ratoeira bem perto da cama, gosto de ouvir quando dispara e o bicho dá aquele último grito de desespero.
Apurei os ouvidos e de longe veio a voz, que foi aumentando:
- Socorro, me tire daqui! Gritou o rato preso pelo rabo.
Levantei no susto e pensei sair correndo. Uma força sobrenatural me prendeu. Resolvi falar com o bicho:
- Porra, que merda é essa, você fala?
Ele me encarou como nunca um rato havia me encarado:
- Claro que falo, eu sou o criador.
- Oi? Como é?
E então surgiu a primeira intimidade:
- Me tire daqui, Vladimir.
- Você me conhece?
- Claro que conheço, você e todo mundo, já disse, eu sou o criador.
Ri com o canto dos olhos.
- O criador?...Tipo...Deus?
O rato balançou a cabeça num início de irritação:
- Tenho vários nomes. Mas é isso, eu sou Deus.
Deixei o ombro cair e busquei com os olhos o baseado ainda aceso no criado mudo.
- Ah, num fode, você é um rato.
- Vladimir, não quero dar explicações, me tire daqui!
- Uai, se você é Deus virado num rato, tem poder, então é só desvirar.
- Não consigo, a mágica do rato é pelo rabo e você armou essa porcaria dessa ratoeira que arregaçou exatamente o rabo.
Ah, será que ainda sobrou vinho? O rivotril secou?
Pensei um pouco, ele tinha os olhos bondosos e um jeito franco de me encarar. Na literatura, geralmente, ratos são bonzinhos. Preciso consultar aquele meu amigo.
- Rápido Vladimir, está doendo!
Balancei a cabeça, agachei e tirei o rabo do bicho da armadilha. Puft! Uma nuvem branca se formou após uma pequena explosão. Então o rato se transformou em um senhor bem velhinho, dos cabelos brancos esticados, os olhos meigos e usando óculos. Achei estranho, por que Deus usaria óculos? Ele pareceu ler o meu pensamento:
- Charme...
Não quis discutir, nem mesmo levantar suspeitas, coisas implicantes, como o fato de que os óculos estavam embaçados. Ele me encarou como um mendigo agradece uma moeda.
Devo confessar que ele pisca demais e nunca gostei de gente que pisca demais. O danado lê pensamentos:
- É um tique nervoso apenas, não ligue.
- Entendi...
- Bom, você fez uma boa ação e merece uma recompensa.
Estou pensando dar uma ressetada na raça humana e é bom você escolher um lugar porque vou dar uma regaçada geral e...
- Ah, esse vírus ai, foi coisa sua?
- O corona? Cara, você acredita na Globo? O vírus corona é coisa dos chineses. Comigo o negócio é mais embaixo, já mando um meteoro, um dilúvio, uma chuva de gafanhotos... Dessa vez estava pensando dar uma balançada no mar, criar um tsunami, virar tudo do avesso, inclusive aqui onde você mora, o Mato Grosso.
- Do sul.
- Oi?
- Não, nada. Bobagem...
- Mas já que você me salvou, posso te enviar para um lugar seguro.
Meu olhos brilharam.
- Posso levar alguém?
- Claro, claro, viver sozinho ninguém merece... Escolha ai cinco pessoas.
- É tipo uma ilha?
- Ilha? É, pode ser.
- Vai ter chope?
- Daremos um jeito.
- Bom, então eu quero levar a Jenifer Lopez, a Fernanda Paes Lemes, a Flávia Alessandra, a Jéssica Alba e a Sandy.
- Sandy?
- É...eu tenho um assunto mal resolvido com ela desde os anos noventa, sabe.
- Sei...eu sei, eu vejo tudo – e ergueu as lentes dos óculos fazendo um rosto sacana. E depois os olhos danaram a piscar. Acho que é nesse momento que ele lê os pensamentos e descobre segredos, aquelas coisas que a gente quer esconder para sempre.
Ele piscou cinco vezes seguidas.

Fiquei com um medo danado que ele se lembrasse de mim criança, quando eu matava as galinhas da vizinhança para fazer um penacho e imitar o índio do Village People. Eu não sabia que ele era gay, pensei e ele escutou, fez cara de enfezo, sem abrir a boca me chamou de homofóbico.

 - Maluquice essa sua ideia.

- Maluquice?

- Você quer mesmo levar cinco mulheres para uma ilha deserta? Tem ideia do inferno que elas vão transformar o lugar logo nos primeiros dias?

- Você acha?

- Cara, eu não acho, tenho certeza. Ah até hoje, quando me lembro do pobre Adão...E olha que ele estava só com uma.

- Eva né?

- Não, Eva veio depois. Adão estava com Lilith... cara, que inferno! Pobre Adão...

Fiz cara de compreensão, mesmo não sabendo nada sobre a tal Lilith. Sempre tive curiosidade de saber se Adão e Eva tinham umbigo. Cheguei a abrir a boca para perguntar, mas ele falou primeiro.

- Tédio é uma das minhas piores invenções. Sim, sim, eu também sinto tédio. A sorte que sou Deus e daí posso criar umas fugas. Hoje por exemplo, pensei, estou com vontade de ser um rato ladrão de restos de pizzas...

- Bom, o senhor...

- Não precisa me chamar de senhor, pode ser você...

- Tá...então o senhor, digo, você acha que eu devia levar homens também?

- Sim, pelo menos dois, para dar uma equilibrada sabe?

- Bom, tem aquele meu amigo escritor.

- Não, não...aquele não.

- Mas...

- Não gosto dele, muito metido a querer saber demais, sempre duvidando, perguntando coisas, qualquer motivozinho já escreve um texto me questionando....ele não.

- Ele não?

- Escolha outros dois.

- Eu gosto do Bruno e Marrone.

- Bruno sim, Marrone não.

- Ah?

- Bruno bebe, fica bêbado, é legal. Marrone é mudo e chato.

- Tá...Tô aqui pensando outro...

- Eu não tenho o dia todo...

Nesse momento me ocorreu uma ideia e olhei para o canto da casa, a velha bateria repleta de pó, as baquetas segurando a trava da janela. Sonho antigo que deu em nada, eu e meus amigos formamos uma banda, a “Junta do cabeçote” nome de duplo sentido, porque tal e qual o motor de um carro, as mulheres não nos entediam, também porque achamos o máximo tirar onda com a foto que seria da capa,  homens juntos e coçando os cabeçotes.

As mulheres odiaram, “ideia podre’ disseram, rogaram pragas e a banda não decolou de vez.

A pretensão era desbancar a banda RPM, fizemos até uma música “Morena quente”, em contraponto às Loiras geladas deles. Já no início descobrimos que não sabíamos tocar bem nenhum instrumento e muito menos cantar.

O sonho foi para o saco, com cabeçotes e tudo.

Deus piscou os olhos duas, três vezes...Hummm, recriar a Junta do cabeçote...Boa ideia!

E continuou pensando e piscando, apanhou o baseado ainda pela metade no canto da cama, deu duas tragadas longas e depois me encarou.

- Vou para casa pensar nessa sua ideia. O acordo do Paulo Ricardo com Lúcifer sempre me incomodou, preciso dar o troco. Volto quando tiver com tudo pronto.

Acordo do Paulo Ricardo com Lúcifer? Mas é claro, pensei, por isso o filho da puta nunca envelhece. 

Sorri meio sem jeito enquanto Deus dava mais uma tragada no baseado, chupando até o final sem queimar os dedos.

Resolvi aproveitar para uma última questão:

- Ah, uma coisa, o meu amigo escritor, sabe, era ele que escrevia as músicas...

- Ele escreve inspirado em mim e nem desconfia. É um chato...Tudo bem, pode levar ele e os outros três amigos.

- E as mulheres?

- Só a Fernanda Paes Leme e a Lidia Brondi.

- Eu nem pedi a Lidia Brondi.

- Mas pensou. E eu gosto mais dela, sempre recatada, certinha, afastada há quanto tempo? Nem eu sei. Está na hora dela dar umas sacudidas.

- E a ilha, posso saber onde é?

- Ilha? Ah, não vou mais acabar com o mundo.

- Não?

- Eu estava entediado, mas essa ideia de recriar a Junta do cabeçote foi demais, já estou até vendo as manchetes.

- Mas...Deus, é que nós não sabemos direito...

Ele piscou no mínimo dez vezes, vi os brilhos escaparem do seu olhar.

- Seremos um quinteto. Eu serei o guitarrista e vocal principal.Foi assim com aqueles rapazes de Liverpool ...

Meu olhos não parava na cara. Liverpool, Beatles, o quinto Beatle era Deus? Ou será que ele era um deles?

- Me chamavam de Johnn...Daí Lúcifer mandou um dos seus capangas acabar com a brincadeira...

Fiquei pasmo, sem palavras.

- Mas e as meninas, elas serão parte da banda?

- Sim, claro, no começo backing vocal e bailarinas, depois eu penso em algo mais.

E nem falei mais nada, ele fez um gesto com os dedos, tipo despedida, se transformou numa mosca e voou até o vão da janela.  Bateu no vidro, escapou para o canto fechado, zumbiu desesperado, bateu as asas freneticamente até finalmente encontrar a saída e desapareceu no céu aberto.

- Danado, por isso ele usa óculos...

Achei o vidro do rivotril, bebi dezoito gotas e cai num sono absurdamente pesado.

Quem sabe amanhã Deus volta, quem sabe...

Segunda-Feira 16.12.2019 às 03:15

O sorriso da orquídea

André Alvez

GEORGE SAND.jpg

Eleanor imaginou que talvez somente ela tivesse reparado a mudança; as cores das flores do jardim estavam diferentes, o verde caído, o brilho fosco nas margaridas, a rosa vermelha transformada em cinza e o jasmim com as pétalas abertas num branco sem vida.

Carlos dizia enxergar o sorriso das flores. Num passeio, entrou na mata à procura de tesouros e de lá retornou trazendo um pedaço de tronco de árvore com um filete de rama verde escapando entre as frestas da madeira.

Eleanor sorriu surpresa, ele tratou de pôr fim ao espanto: “é uma orquídea, deste tronco logo nascerá uma das mais belas flores do universo”, disse enquanto repousava o tronco da árvore no seu colo. Naquele instante, dos olhos de Carlos escapou um brilho intenso transformado numa lágrima incontida de canto, enxugada às pressas nas mãos trêmulas de emoção.

Eles não sabiam, aquela lágrima era sinal de adeus. “Um dia, me encontre numa flor”, foram as últimas palavras de Carlos.

Para matar o luto, Eleanor coloriu o quintal da casa com flores diversas, mas nenhuma conseguia resplandecer brilho suficiente para suportar tamanha dor.

Do tronco que guardava a orquídea – cuidadosamente preso a um arame na parede da varanda – brotou uma flor magnífica, de três pétalas marrons e no centro a figura de um macaco. Olhando atentamente, a orquídea parecia lhe sorrir. Era espantosa e ao mesmo tempo cativante. As lentes dos óculos estão novamente embaçadas, pensou. Mas após esfregá-las com todo cuidado, e lançar o rosto até junto à planta, o macaco permanecia lá, mostrando o seu indefectível sorriso.

O passar dos dias, perdurando na mente a amarga angústia, transformou o rosto de Carlos na mesma feição dolorida de Rimbaud. “Me encontre numa flor”, a frase incessante assoprada pelo vento a fez recordar um livro antigo que falava sobre o sorriso das flores após a tempestade. Procurou-o até encontrar.

Antes de enlouquecer, porque começou a falar com a orquídea como se fosse Carlos, resolveu mudar a planta de lugar, num galho do pé de magnólia, pouco distante da janela do quarto de dormir.

No apagar das luzes, entre o cochilo preso nas pálpebras cansadas, restava o brilho fraco do vidro da janela, um último olhar de soslaio. E lá fora, o macaco prosseguia sorrindo, apontado para ela suas pétalas marrons, como quem pede um abraço.

De repente a luz do sol invadindo o quarto, outro dia, o sono pesado que a fez desabar pelos lençóis da cama pouco antes. O levantar trôpego, as mãos tateando o nada à procura dos óculos, a garganta seca pela estiagem, ardendo no gole do copo d’água que deixou pela metade, atiçada pelo bater de asas dos beija-flores na varanda da vizinha. Por que os beija-flores de repente só se vestem de cinza? 

Na brisa lá de fora sentiu o cheiro das plantas, o mesmo de sempre, mas as cores das flores estavam diferentes.  O céu cinza sem nuvens refletia a estiagem, um resto de mata ardente – talvez seja isso, imaginou – formando rugas acima dos olhos, a mão direita tampando o sol. As pessoas cruzaram a praça num ritmo acelerado, sem olhar para os lados. Um tanto acabrunhada, Eleanor ergueu o rosto para o alto, fumando o vento, ajeitando o aro dos óculos no nariz enquanto tentava prender a presilha nos cabelos rebeldes. Apanhou uma flor do canteiro, ainda ontem era uma reluzente petúnia azul – suspirou – a mesma cor que sempre imaginou ser do mar, mas agora estava cinza feito o céu. A antiga vontade de conhecer o mar havia deixado num canto, sem Carlos o mar não tinha razão; era imenso e azul, às vezes verde, trazia ondas enormes que desabavam na praia, mas nada sabia sobre flores sorrindo. Acelerou os passos, mordeu os lábios para não dizer nada, alguém haveria de perceber e também exclamar, afinal, flores não mudam de cor. No ponto de ônibus, as pessoas, como se combinado, trajavam roupas opacas, os bancos do ônibus também estavam diferentes, acinzentados, não existia mais o amarelo de ontem, a camisa do motorista, antes de um azul claro vistoso, agora transformada numa tristeza bege. Um olhar em volta, novo assombro, os ipês só deram flores marrons e algumas cinzas.  Que estranho ninguém perceber, pensou, fazendo um olhar franzido. Limpou os óculos com tecido de lã num leve passar dos dedos, ajeitou o corpo rapidamente e retirou da bolsa um livro da George Sand, costume antigo, ler no ônibus, em pé, com uma das mãos segurando o ferro de proteção e a outra equilibrando o livro aberto. O mundo em volta se apagava e o som que ouvia era do vento assoprando um vasto campo florido. Eleanor era uma jovem nascida com tempo para tudo, até mesmo para observar detalhes, as pequenas mudanças, mas não reparou que a literatura francesa estava em desuso e somente ela naquele ônibus lotado sabia porque George Sand usava calça comprida e fumava charutos em público. Um sacolejo no asfalto ruim, a volta à realidade momentânea, o olhar em volta, pessoas vestidas de cinza, como pardais sem plumas, traduzindo a certeza: ninguém por perto conhecia George Sand. Vinte e sete páginas até o ponto final e a história vagando na sua mente.

As duas árvores que ornavam a frente da empresa a receberam num abraço de frondes cinzentos. Na entrada, o quadro de Van Gogh se mostrou apagado, repleto de girassóis mortos. Segurou firme o cartão de ponto, antes amarelo e agora bege feito um pano de chão. Ao passar pelo espelho, imaginou ter se enganado com o vestido, não era daquela cor, embora o corte fosse muito parecido. O rapaz musculoso da copiadora passou por ela esparramando pelo ar um perfume azedo que embaçou de vez as lentes dos seus óculos. Os olhos negros de agora, ontem eram castanhos – pensou – e logo teve pressa, ajeitou o corpo no vestido e arrumou a presilha na cabeça, a velha tendência a fugir de situações embaraçosas. Seria uma má sina – suspirou – ter os cabelos ruivos e os olhos azuis se os cabelos rebeldes viviam brigando com a presilha e os olhos bonitos se escondiam detrás das lentes dos óculos.

O dia passou depressa. No retorno, as luzes da cidade estavam opacas e um vento repentino trazia o cheiro de chuva. De novo o livro numa das mãos, a outra mão segurando o ferro da sustentação, um breve sorriso abraçando a imagem no pensamento: George Sand enxergava o sorriso das flores nos campos encharcados enquanto Chopin tocava piano após a tempestade.

Novamente em casa, se deparou com as paredes tomadas de uma inesperada cor de avelã. Se deteve num olhar sob a paisagem escura, em volta tudo coisa gasta. Demorou mais que o habitual para encaixar a chave na fechadura, assombrada pelas flores do jardim, envoltas numa cor de pólvora. Tateou a parede até encontrar a tomada da luz, mas a escuridão permaneceu em volta até limpar os óculos, a quietude quebrada por pequenos ruídos, a gaveta se fechando levemente na cozinha, a porta da geladeira se abrindo, a fumaça do cigarro desenhando um círculo marrom e, num costumeiro arrepio, sentiu o medo kafkiano de se transformar numa barata. Ao menos as baratas podem voar e desconhecem as cores das flores – pensou em meio a um sorriso tossido.

No fim daquela noite caiu uma chuva fininha, que foi aumentando até se tornar temporal e Eleanor enxergou quase nada, apenas a janela baça segurando os pingos fortes que lhe batiam num tamborilar nervoso.

No clarão do relâmpago, lá fora, a flor com cara de macaco sorria para ela.

Conforme a chuva aumentava e envolvia a janela no seu manto de águas incessantes, desde o pé de magnólia a orquídea ganhava vida, vindo acelerada até a parede do quarto, abraçando completamente o vidro da janela.

Já não tinha a cara de macaco, era rosto de gente, primeiro Rimbaud, depois Carlos, encharcado pelos pingos da chuva, as pétalas balançando de um lado para o outro, pedindo para entrar.

Eleanor enxugou a lágrima fina no canto dos olhos, sorriu timidamente, é apenas o sorriso da orquídea, virou-se para o outro lado antes que a vista embaçasse de vez e desabou num sono alentador.

Sonhou sonhos bons, porque nos sonhos não existem lágrimas, não é preciso usar óculos embaçados, por lá as flores são tantas, não mudam de cor, nada se esfuma, embora somente a orquídea com cara de macaco conseguia sorrir para ela.

No canto do criado-mudo jaziam os óculos das lentes embaçadas, calmos e solenes, aguardando o fim do sonho e o retorno das flores cinzas no dia seguinte. 

Terça-Feira 05.02.2019 às 10:30

O novo, de novo.

André Alvez

O ano
O novo
O povo, o ovo.
A faca
A fama
O povo, o drama.
O feio
O feito
O efeito
Escorrem os dejeitos;
Num mar de lama...

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