Sexta-Feira, 10.07.2020

Blog André Luis Alvez

Sábado 04.07.2020 às 12:45

A batalha entre o hipocampo e o canal, ao som de Maiara e Maraisa

André Alvez

Recentemente, numa reportagem, fiquei sabendo que guardamos a nossa memória na parte frontal do cérebro, uma região chamada hipocampo.

Gancho feito, entro no assunto dessa crônica.


Quem é capaz de fazer tratamento odontológico em plena pandemia?


No início do ano, resolvi fazer tratamento dentário em um desses consultórios especializados. Cada consulta, um dentista diferente. O lugar é extremamente limpo e organizado, mas sinto como se estivesse entrando no consultório do doutor Frankenstein.


A sala, além de toda a parafernália odontológica, possuía, de frente à cadeira do dentista, uma Tevê.


Achei estranho, mas não disse nada.


O dentista se mostra uma espécie de Deus, todo de branco, máscara cobrindo parte do rosto, cabelos grisalhos, um Richard Gere dos anos noventa.
A auxiliar sorriu ao me apontar a cadeira. Devolvi o sorriso e tentei me ajeitar.


- Fique tranqüilo, não vai doer nada – disse o dentista – abra a boca, por gentileza.
Sempre achei que uma dose de uísque antes de sentar naquela cadeira devia ser obrigatória.
- Vamos fazer o canal do molar inferior direito, ok?
- Sim, sem problemas. - Digo, tentando disfarçar o medo. O dente nem estava doendo, qual será o tal molar inferior direito? Precisa mesmo mexer em quem está quieto?
E no instante seguinte, entre o dente a ser tratado, doutor Gere ajeitou um punhado de algodão de cada lado.


E aí que entra o hipocampo e seu arsenal de recordações.


Faço uso dele para me desligar do sofrimento. Pensar em algo bom enquanto o mundo acaba.  Inicio um exercício, permito o silêncio me envolver, fecho os olhos e escuto uma música orquestrada. Música orquestrada me acalma desde menino e o pensamento se mistura a uma porção de questionamentos: o oboé é difícil de aprender? Algum violino se encaixa nos meus ombros caídos? Como é o nome daquela orquestra que desapareceu durante um voo em meio a uma tempestade?


O dentista se move ligeiro na cadeira. Uma sede danada me invade.


- Ummm, canal profundo. Vamos demorar um pouco para terminar.


Canal demorado... Significa que o cirurgião dentista irá extrair um nervo de dentro do meu dente e vai demorar a fazê-lo. Para isso ele vai usar anestesia, um tipo de injeção dentro da boca, dói bastante, embora o dentista vá dizer que será apenas uma “agulhadazinha” de nada.


Tento buscar a paz das orquestras. Glenn Miller, o nome do maestro desaparecido no desastre aéreo, surge na minha mente. Aviões caindo e tratamento de canal dentário, não é uma boa mistura. Reviro os olhos, jogo fora a tragédia do maestro.


- Vou anestesiar e você sentirá uma agulhadazinha de nada – ele diz, como se tivesse escutado o meu pensamento –.


A tal agulhadazinha dói uma barbaridade, mas não posso falar nada, a boca aberta, repleta de algodão, se transformando aos poucos num daqueles círculos do inferno de Dante.


- A anistia já fez efeito. Vamos começar... – diz o doutor bonitão e eu me lembro que Lúcifer também é bonito –.


Ele dá as costas para mim na cadeira giratória, começa a apanhar um monte de ferramentas, clesh, sclhesh, plesht.

Num momento de total desatino, penso pegar nas mãos da moça auxiliar do bonitão, um gesto de pedido de ajuda, mas ela não nota o meu desespero, permanece impávida, o rosto sereno atrás de uma máscara bege.


Ele gira a cadeira num supetão e fica de frente para mim.


- Fica calmo, não vai doer nada – quando alguém diz isso, geralmente está mentindo –
E como não existe nada ruim que não possa ficar péssimo, a ajudante do dentista resolve ligar a tevê e nela surgem sons e imagens de um show ao vivo gravado em DVD.


Assombrado, percebo que é o de uma dupla sertaneja, Maiara e Marinara, algo assim.
Eu odeio música sertaneja. Ao vivo, então...


Pronto, o inferno está completo. A boca anestesiada parece uma coxinha de frango frito.


O dentista pega algo parecido a um anzol. Pernas tremem e ele nada percebe. Depois retira algo que imagino ser a tampa do dente. O tremor nas pernas aumenta, a voz da dupla sertaneja – eu realmente detesto música sertaneja – se funde ao barulho do motorzinho, ziiiiim, zim, ziiiiiiiim,  o punhado de algodão em cada lado da gengiva se transforma na frase de Brecht: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.


Um pedido de socorro na mente e o hipocampo, velho camarada, consegue novamente me trazer imagens das boas lembranças:
Eu tinha quinze anos quando isso aconteceu. Ah, quinze anos, um rapaz magro, dos olhos brilhantes, apaixonado pela colega japonesa da escola, pela filha da vizinha e também pela moça mais velha, garçonete do bar do português.
Eu amava as três ao mesmo tempo, sem lhes dizer palavras, amava com os olhos, com o sopro do silêncio fazendo bater o coração juvenil.
Como isso foi possível? Talvez o hipocampo tenha escondido algumas verdades que não desejo recordar.


Longe demais, hipocampo! Vamos aos meus vinte e poucos anos, barzinho com os amigos, muita cerveja e sem hora para ir embora.


Zim, zim, ziiiiim, romck, romck, o barulho na minha boca espanta os bons pensamentos, confundem o hipocampo, aciona lembranças ruins, os cabelos começaram a cair aos dezoito, precisamos reagir hipocampo! E a imagem boa logo vem, final de semana na casa de amigos, no som da vitrola Tetê e o lírio selvagem, Belchior, Djavan, a ideia repentina do amigo Ronaldo, inspirado por uma imensa lua cheia:  fazer serenata para a namora Amanda.  E lá fomos nós, o carinha de óculos, que esqueci o nome, dedilhando o violão, ao lado dele nossa amiga cantora, aquela sim, cantava tão bem, tinha a voz da Zizi Possi, onde será que ela foi morar? Minha função era carregar o abacaxi recheado de pinga e... zim ziiiiimmmm, ronck, ronck, estrondos na boca.

Foco no luar, hipocampo, imploro e ele me obedece, fazendo surgir a cena mais bela: a namorada do amigo abre a janela e chora de emoção, mas o pai fica zangado, onde já se viu, incomodar a vizinhança numa hora dessas? Dona Maria, a madrasta da moça, passa o pano, se acalme Osvaldo, eles são jovens, você já fez serenata para mim? Não, claro que não, mas não ligo, talvez um dia, mas quero com harpa e sanfona, e todos rimos de um tanto, nem percebi o abacaxi escapando das minhas mãos.... zum, zim, romck, cuidado com a língua! Hipocampo atrapalhado novamente, me envia antigas notícias ruins, como vou fazer para passar em matemática, física e química? 

Lembranças boas, por favor, hipocampo! 

O fim de semana no Cachoeirão, trilhos nos levando rumo ao Pantanal, os amigos no restaurante do trem, cerveja gelada, bife a cavalo, a moça ligeiramente estrábica está olhando para mim ou é impressão?

Mais um gole de cerveja, um risinho basta por enquanto, depois crio coragem para perguntar, será que ela vai descer na estação Cachoeirão?


Na tevê, o mundo despenca: “Sabe o que você tem? Tem sorte que cê beija bem” cantam Maiara e a irmã que nunca lembro o nome. De repente, o dentista finalmente resolve retirar o maldito punhado de algodão e esguichar água na minha boca.
- Cospe – ele diz.
Alívio, olhos lacrimejando, vontade louca de me levantar da maldita cadeira. Mas ainda não terminou, ele torna e encaixar algodão entre o dente:
- Coloque a língua para o outro lado – ordena. Obedeço e respiro fundo. Na tela da tevê, as irmãs sacolejam o corpo, é impressionante como elas são queridas pelo público.
 “O culpado de tudo é os Hômeeeeeee, nois mué temos razãoooooo!
Ò céus, lá vem o motorzinho...Socorro hipocampo!


Fecho os olhos novamente e vou lá para o dia do nosso casamento.
A Graziela estava linda, e eu...provavelmente também.
Padre Antônio faz um sermão belíssimo, que dure para sempre, disse ao final, num belo sorriso. Sinto vontade de voltar lá e lhe contar dos quase trinta anos passados, os detalhes das muitas lutas e conquistas, estamos juntos, temos dois filhos, um neto e eu virei escritor, mas será que o padre Antônio se lembra de nós?

A auxiliar do dentista traz um objeto pelas mãos e o entrega ao doutor.
- Esse não serve, põe broca maior.
Broca maior? Medo, angústia. Maiara e Marinalva dançam e cantam:
“Se ele te beija gostoso, dá um amasso cabuloso, quem ensinou fui eu, quem ensinou fui eeeeeu”. 

Chico César, eu concordo contigo, odeio rodeio!

Lembranças boas, hipocampo, vamos lá, você consegue, manda alguma recordação feliz, senão vou entortar a língua e jogar fora o maldito algodão.
O querido hipocampo se abre, me envia imagens de bichos, direto da janela do trem, passando Miranda, na curva da mata, um tamanduá abraçado a um monte de cupim.
Até os caramujos do Manoel me acenam, eles sabem do meu sofrimento, ziiiiim, zict, zonk, stronk. Enfim, Corumbá. Que cidade linda, meu Deus! O hipocampo se rebela, tenta me questionar: porque está falando em Deus se você é ateu? É o medo do dentista, o algodão, a língua que não quer parar no céu da boca, a dança e a voz da Maiara e da irmã?
Eu não sou ateu, sou deísta!
Ele não liga, prossegue me provocando: quem é Maiara, quem é Marinara? Ou será Marialva? Consegue me irritar com tantas perguntas, resolvo retrucar: você sabia que hipocampo significa cavalo do diabo?
Maiara e a irmã entram de sola na discussão:
“Cê ta roubando o tempo, cê tá ocupando o espaço dela, os planos do casório, do cachorro, do neném com a cara dela, libera ela, libera ela, libera elaaaaaa”.

O dentista enfim para de cutucar o meu dente e ergue a cadeira.
- Pode cuspir.
Fim do suplício.
Durou quase quarenta minutos a tortura.
Não volto mais, dane-se se já paguei o tratamento.
A auxiliar do dentista sorri. Ele me encara.
- Deu um trabalhinho, viu? Estava feia a coisa. Vou marcar o retorno para semana que vem.
Paro e penso: tenho que aguentar. Falta só mais um canal. Sou forte e tenho ao meu lado as lembranças guardadas no hipocampo.
- Tudo bem, semana que vem. Mas posso fazer uma sugestão, doutor?
- Claro que sim.
- O senhor não teria o DVD do Ira ou alguma coisa dos Titãs?
Ele me encara de olhos bem abertos, espantado:
- Você não gosta da Maiara e Maraisa?
Enfim, descubro o nome correto da dupla.
- Nem um pouco.
Ele sorri, um tanto sem jeito.
- Era só falar, temos vários DVDs.  Tem muita gente que gosta delas e pensei que você fosse mais um fã da dupla.
- Não gosto, não. Se não fosse o meu hipocampo, teria desistido.
- Seu hipo o quê?
- Nada não, doutor, nada não.  Até semana que vem!
Abri a porta da saída e senti o alívio dos desamarrados, um daqueles respiros profundos, a brisa gostosa batendo no rosto, o sentimento do dever cumprido.

Sou até capaz de ouvir novamente Maiara e Maraisa.


Desligo o hipocampo. Semana que vem tem mais.

Segunda-Feira 15.06.2020 às 09:03

O diabo debaixo da árvore num dia frio

André Alvez

Machado de Assis, o pilar da literatura nacional, disse: “ Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! “
Mas acontece que estamos no inverno e faz um frio dos diabos lá fora. Sempre achei essa frase descabida: um ser do inferno como o diabo, não deve gostar do frio.
O sopro louco dos ventos frios, se tem algo de bom, é aguçar a imaginação.
Otto Lara Resende, certa vez escreveu sobre o alívio de nunca ter sido apresentado ao diabo: “é que, assim como André Gide, depois de uma boa conversa, sofro a tentação de entender as razões do adversário”.  Desconfio que também sofro desse mal.
Em tempos de frio, os olhos embaçados pelo nevoeiro, todos os seres são gatos pardos. Está tudo tão certo e calmo, o casaco, um copo de chocolate, a quentura do meu quarto. Mas alguma coisa me chama até a janela e consigo ver: na esquina, duas árvores em meio à neblina, entre elas, caída ao chão, uma figura de traços humanos tremendo de frio. Eu devia voltar para debaixo das cobertas, ainda é muito cedo, o sábado mal começou, mas não existe sujeito mais curioso que escritor. Desço a escada, caminho firme e as palavras de André Gide se misturam a uma espécie de grito na minha cabeça: que escritor nunca quis conversar com o diabo?
Chego sem disfarçar, um sorriso falso na cara: Que nome devo chama-lo? Tem tantos. Ele me olha, parece ler pensamentos, mesmo quieto, ouço a sua voz: “mania boba dos humanos dar vários nomes à mesma coisa, um rio é água que corre, o mar é água que se levanta e todos os homens são filhos de Deus”.
Balancei a cabeça, optei pelo mais usual:
- Olá, senhor diabo!
Ele me olha com olhos brilhantes, os lábios cortados pelo frio e a boca de sede.
- Oi, como vai? Frio demais, não é mesmo?
- Ah sim, detesto. Saudades do sol.
- E eu, das labaredas.
- Mas existe inverno no inferno?
- O inferno é aqui.
- Entendi.
Silêncio. Não me chega assunto. Ele sorri. Anoto na mente os detalhes para escrever mais tarde:  o diabo não tem chifres, nem rabo, de perto não é vermelho, é branco, olhos azuis, um furo no queixo, bastante alto, embora encolhido por causa do frio. Ele pousa o cotovelo no tronco da árvore, num sorriso sem fim, como se soubesse que eu estava analisando a sua aparência:
- Vocês escritores, bah! Cada um me vê de um jeito diferente.
Tarde demais para recuos, prossigo atento aos detalhes:  O bigode fino, do tipo Dick Vigarista e a barba por fazer, a queda dos cabelos disfarçada num chapéu cinza das abas largas, enfiado até quase as grossas sobrancelhas. Tremia, fazendo balançar o casaco de pele de raposa. Um desassossego me passou pela cabeça, eu não creio no diabo, por que diabo então ficar dando conversa para ele? Tentei sair de perto, voltar para casa, mas existia uma expressão de inquietante curiosidade no olhar do diabo. Será que ele também está me analisando friamente?
Ele gira o dedo no ar, se faz sério:
- Viu o que eles estão fazendo? Depois, a culpa será minha.
Pensei responder, mas ele faz com as mãos gestos de armas, uma quase ordem para que eu me calasse. Obedeci, quieto e atento ao desabafo do diabo.
- O ruim para mim é que o tempo não passa, os ponteiros do relógio estão sempre marcando quinze para as nove e o som que escuto é o mesmo turbilhão de lamentos, a bomba a explodir dentro da minha cabeça não cessa...
- Será que é correto sentir pena do diabo? Falei sem pensar. Ele largou os ombros após o suspiro:
- Sim, eu criei a fome, a miséria, o ódio. Mas o homem aperfeiçoou todos os meus inventos.
Assenti com a cabeça.
- Tem um cigarro? – Me pediu, ameaçando tossir, a mão direita fechada se aproximando da boca. Cheiro de enxofre. –
- Parei de fumar, mas na divagação da escrita, tenho sempre por perto uma carteira de cigarros, daqueles que solta fumaça com menta ao apertar uma bolinha no filtro.
Os olhos do diabo se tornaram sedentos. Acendi o cigarro, dei duas tragadas e passei para ele.
- Não fique com pena de mim, não pense que sou um pobre diabo, eu sou o mal que caminha. Embora os humanos tenham feito de tudo para me acompanhar, eu prossigo sendo o maldito, o inimigo, o capeta.
Largou um suspiro, tragou o cigarro duas vezes seguidas. Reparei que seus olhos, de perto, possuem bordas amarelas. Baixou os olhos por instantes, mas logo se ergueu, numa voz de lamento:
- Eu escuto todas aquelas orações...
O dia nublado, os olhos do diabo também nublados e eu pensando no que se passaria pela cabeça da minha mãe, devota de Nossa Senhora Aparecida, se me visse ali, naquele dia frio, entre duas árvores, conversando e fumando um cigarro com o diabo.
Um pensamento me assomou: e se ele pedisse perdão? O diabo sorriu, armou no rosto o desdenho daqueles que ouvem os pensamentos:
- Perdão é para quem peca. Eu inventei o pecado!
Pensei dizer algum consolo, os fantasmas de André Gide e Otto Lara Resende me cercando num abraço. O diabo balançou a cabeça e me calei, sem me importar com a fumaça de frio que engoliu os dois fantasmas.
 -  O que eu não daria por um pão com manteiga, um pingado bem quente e um minuto de silêncio? Quando penso no homem que deseja ser imortal, chego a sorrir. Recentemente, um humano retardado disse que eu inventei os Beatles. Os Beatles? Pode algo tão estúpido e descabido? E Beethoven, fui eu também? Então, se assim for, sou Deus.
Uma ligeira comoção me assomou, ergui os braços e tentei tocá-lo nos ombros. Ele me olhou enfezado, jogou com a ponta do dedo indicador a bituca do cigarro longe e sua voz era outra, forte, determinada, quase um trovão:
- Não se apegue a mim. Aleister Crowley tentou e se deu mal.
Sorriu ligeiro, depois baforou nas mãos o frio em forma de um jato de fumaça.
- Ultimamente me sinto um tanto ultrapassado, como um velho aposentado, dando milhos aos pombos, sem perceber que os pombos aprenderam a voar para longe, tempos atrás. Não consigo pensar em outras maldades, sou como o compositor que já não consegue entender as cifras das canções.
- Mas essas desgraças que se vê por ai... – O diabo não me permitiu concluir.  –
- É tudo ideia dos homens, coisas que lhes ensinei enquanto tocava saxofone e aprenderam rapidinho, entenderam perfeitamente o meu sopro, muitas vezes desafinado e construíram uma orquestra tão perfeita que dispensa a batuta do maestro. Sou um pobre diabo, vivo de pequenas artimanhas, meu passatempo predileto atualmente é perturbar os poetas, chego perto e sugiro num sussurro: borboleta. E o poeta começa a pensar no casulo, na lagarta, na metamorfose e na cor das asas que dará à sua borboleta. Então dou um jeito de derrubar alguma coisa, faço o barulho de um inseto voando, desenho no ar uma conta a pagar, acendo o pavio da ira da vingança, o faço recordar do amargo pecado de outrem, daquele que não se consegue perdoar, lhe mostro o rosto distante de uma mulher, ou de um homem, lindos, perfeitos,  cuja conquista nunca ousou tentar e o poeta titubeia. E hora de apertar a buzina de um carro, algo assim, e o poeta coça a cabeça, se esquece da luz brilhante do início do poema e começa tudo de novo, a borboleta já não terá asas e o casulo será uma casa de portas trancadas a trinco do lado de fora. O poeta insiste, ele precisa escrever, a febre lhe escorre pela testa, então vou lá e assopro uma palavra sem graça, sem sentido: abajur. Então o poeta pensa numa mesa de lençol esticado, o beiral de uma cama, uma linda mulher, ou um lindo homem se aproximando...Novamente faço barulho, revivo o inseto voando num aterrador zumbido  e ele não pensa em mais nada, vai dormir aborrecido, certo de ter perdido algo que estava entre os dedos, os mesmos dedos que esmagaram a linda borboleta com uma certeira pancada de abajur.
Coço a cabeça, falo sem sentir:
- Hoje eu pensei algo assim... A lagarta saindo de um casulo, qual cor darei à borboleta, azul talvez, mas depois o celular tocou e esqueci tudo.
- O celular...Talvez seja a minha melhor invenção.
Meu rosto ameaçou um sorriso, ele se fez sério:
- Você é ingênuo, pensa que me vê, mas isso é coisa de escritor, vê o que ninguém mais enxerga, finge sentir dor, como disse aquele bardo português, mas na verdade, bem lá no fundo, não está vendo nada, sabe que não passo de um galho de árvore que o vento frio derrubou em meio a duas árvores frias.
E um sopro repentino e gelado envermelhou meu rosto. Esfreguei os olhos, girei os calcanhares e voltei para casa sem olhar para trás.
Um galho de árvore...
Quantos dias ainda teremos desses dias delirantes de frio?
Se eu acreditasse em alguma coisa, juraria que no último instante, pelos cantos dos olhos, vi um bodezinho campeiro correndo ladeira abaixo, assim que o vento gelado voltou a soprar.


Sábado 06.06.2020 às 08:35

Buraco de minhoca

André Alvez

buraco de minhoca 2.png

Nessa manhã, quando acordei, a brisa fria me apanhou num repente. “Venha, abra a janela, observe lá fora, falta pouco para você completar quinze anos”. Esfreguei os olhos, tive um sono pesado, uma viagem ao futuro, quando todos ficaram trancados em casa, com medo da morte invisível  escondida lá fora. Um banho gelado, sabonete de coco, os cabelos que insistem cair, a hora do trabalho que chega depressa e preciso correr. Tomo o Café e me atrapalho ao vestir a camisa, as mangas voam, meu braço demora a encaixar. Minha mãe surge, sorrindo da minha falta de jeito, um beijo na testa e o mundo se mostra ao abrir a porta. É dia claro e a lembrança do sonho me faz estranhar tantas pessoas nas ruas, juntas no ponto de ônibus, ninguém usando máscaras, os abraços, o aperto de mãos, o beijo de um casal. Meus joelhos não doem como no sonho, não sinto medo da morte, o que sinto, diante daquele dia azul, sol aberto e vento gostoso,  é a mesma sede de tudo saber, a conhecida ansiedade de sempre.
O vento me abraça num atropelo gelado, “desculpe, eu preciso passar”, e se vai, rápido, até virar na esquina. Pisco os olhos, me convenço que o vento e o tempo são os mesmos: uma entidade intocável, imutável, muitas vezes cruel. Pedaços de vidros não são diamantes e as páginas do meu livro estão abertas, têm poucas tintas, não tenho nem quinze anos. O que vai acontecer é um prato sobre a mesa e a cabeça recheada de sonhos. Procuro alguém com quem conversar, mas a menina dos dentes de ferro mal sabe da minha existência, um sorriso de passagem, nada mais, desconhece o poema que escrevi em sua homenagem, no qual ocultei a palavra amor por não saber exatamente o que sentia. Meus amigos, apenas eles me entendem, mas quando conversamos, o assunto é outro, rapazes não fazem confidências. O trem atravessa a avenida e tudo para, menos a pressa da minha alucinação. Os trilhos rangem, os motoristas seguram firme o volante, ansiosos para o último vagão passar e dar lugar à liberdade. É isso o que os homens dos anos oitenta chamam de liberdade? Eu quero voar, mas meus pés gostam da terra vermelha, do cheiro da lenha cortada, da fumaça escapando do quintal, desde quando minha avó riscou a chama nas folhas secas varridas e o cheiro do mato ficou grudado em mim.  Em segundos um filme se passa na minha cabeça, eu não quero mais ir embora da minha cidade: o Fog londrino e a Estátua da Liberdade não mais me seduzem, eu quero é grudar minhas unhas no meu chão. O ônibus caminha calmo, masco o chiclete de menta na boca, mandíbula em movimento move o mento e sinto o prazer do hálito puro. A paisagem me alucina, observo as laterais: muros brancos demais, paredes lisas, portas com trancas, elas me atraem, a mão chega a tremer, mas sei que a tinta sairá em desalinho, um tanto incompreensível: quem conseguirá entender um rapaz latino americano sem dinheiro no banco enxergando o futuro? O meu pai está por ai, numa dessas ruas, mas já não sinto necessidade de encontrá-lo. Sumiu no beco tempos atrás, foi engolido pela tempestade. Meus amigos vão ao culto e eu prossigo oculto, duvidando de tudo, achando graça das roupas brancas, em contraste com as minhas coloridas, e sentindo imenso alívio quando dizem amém. É o final e só então consigo sorrir. Li um livro semana passada e fiquei impressionado, não tanto com a personagem principal, mas com as duas divindades que possuem intimidades com o tempo: o Chapeleiro e o Coelho Branco. Estou sempre atrasado e não sei exatamente o porquê? Queria ter o conhecimento do Chapeleiro, ele tem respostas para tudo, porque as espinhas no meu rosto causam a dor inesperada, tal e qual os pelos que de repente começaram a surgir. Eu raspo e a lâmina me corta, fico pálido, a olhar de lado, preso ao medo que algum adulto apareça e tome meu sangue como motivo de susto ou risada. O tempo é um senhor, disse o chapeleiro, mas Alice não acreditou, ela é jovem como eu e nós só temos sonhos, um mundo abaixo da toca da árvore, cujo portão de entrada está escrito em letras garrafais: proibida a entrada do tempo. E o ônibus parou afinal, desci carregando a rufada de palavras na cabeça, perguntas sem respostas, amanhã ainda é longe, eu só tenho quatorze anos. No fim do dia, ao me deitar, penso no sono de antes e o desassossego me abrange. Pego um pouco de Renato Russo, restos do Chico Buarque, misturo com o Biafra e saem os versos em desalinho, balançando na cabeça e aos poucos me acalantam: O que fazer de mim, se o sol nunca mais vai se pôr, se o meu sangue errou de veia, perdeu o caminho (na bagunça) do seu coração, me fazendo confundir a hora de ir, ir por onde ninguém for e o que restou foi essa vontade imensa de sentir o que eu não posso ter. E o sono chega de leve, enquadrado pela janela, trazendo um medo ligeiro de voltar ao futuro, embora eu saiba que por lá, muita gente me aguarda ansiosa.

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