Quinta-Feira,, 23.05.2019

Blog André Luis Alvez

Sexta-Feira 22.03.2019 às 10:54

Se o homem não perceber

Eu queria escrever uma crônica linda, tão linda que alguém poderia supor ser um texto do Rubem Braga.
Presunção à parte, crônica só se escreve depois de enxergar o ar, quando os movimentos das ruas ou os ventos do passado nos mostram os encantos do dia.
Debrucei meus olhos lá fora e só encontrei frases soltas, indignas do Pirandello vendendo água no sinal fechado.
O que fazer quando a inspiração não se mostra em forma de crônica? Contar um conto, ora.
Pois bem, passeia na minha cabeça uma historinha que bem vale um conto. Ei-lo:
Entre as nuvens do céu cinzento, um facho de luz escapou indo iluminar a cabeça do menino que um dia seria poeta.
Somente ele notou a luz afagando seus cabelos e tentou apanhá-la com as mãos.
Depois sorriu, correndo se juntar aos outros meninos no sossego de soltar pandorgas.
O pequeno poeta vivia numa casa rosada, entre a cidade e a mata, bem ao meio.
Na estação dos ventos, foi quando começou a sonhar acordado, no instante sublime que o vento assoprou com força as folhas e derrubou as sementes. O homem não percebeu quando ele anotou os detalhes: eram diversos coelhos e olhavam para o topo do prédio distante, armados num brilho nos olhos vermelhos, como quem enxerga uma luz de pedra.
Apenas um deles restou ao fim do dia, exatamente o coelho diferente, das orelhas brancas e dos olhos mais brilhantes.
Após o frio, veio o primeiro dia da estação colorida, e o brilho das cores desenhou a coragem no coração do coelho.
À noite, os vagalumes iluminaram a escuridão e apontaram os perigos do chão úmido pelo sereno que caía.
O coelho chafurdou até encontrar a semente que julgou ideal e danou a saltitar para fora da mata, sem se preocupar com os perigos dos primeiros raios do sol.
O Homem não percebeu quando ele atravessou as avenidas da grande cidade, indo de encontro ao prédio que lhe gastava as vistas.
O homem sequer desconfiou quando o bicho escalou a parede de concreto até o pico.
A visão era larga, mas coelhos enxergam longe e ele logo percebeu, no exato local onde o sol batia, um punhado de terra esquecido na construção. Então cavucou ligeiro e jogou a semente.
Depois suspirou um respiro acelerado de coelho e tapou o buraco, enxugando por fim o suor do triunfo acima dos seus olhos vermelhos. Contemplou o feito numa euforia de raposa e só não sorriu porque coelhos não sabem sorrir.
O homem não percebeu quando ele retornou para a mata e lá se enfiou tentando abafar o acelerado medo de bicho.
Na estação do sol, o menino poeta sentiu um cheiro diferente no ar, mas engoliu a estranheza, capturado pelos gritos escapando dos becos.
Era uma turba de loucos que enxergaram no fundo da mata um vão de espaço no qual caberia um edifício.
Não pensaram, os loucos não pensam, apenas sonham, fazem da utopia um refúgio do abstrato.
O menino olhou os loucos se afastando; contou cada tijolo, os sacos de cimentos e o amontoado de areia que eles carregavam numa euforia insana.
Amarrados em seus insípidos cordões, os homens nada perceberam.
Os poetas, os loucos e os coelhos se entenderam num ritual de cumplicidade.
E vieram as outras estações.
Os loucos ergueram em meio à mata um enorme edifício e por lá se enfiaram, engalfinhados num cante de risos alucinantes.
Os homens não perceberam o cântico dos loucos, nem a trilha dos coelhos rumando até as paredes do enorme edifício.
O menino que seria um poeta já era rapaz, não soltava mais pandorgas, carregava enfiado no braço um caderno no qual tudo anotava.
E veio a nova estação e com ela os sinais no céu que os homens não perceberam.
Em meio à mata, entre árvores frondosas, o edifício de concreto rutilava entre as galhadas.
O poeta fez da folha do caderno a última pandorga; soltou a linha o máximo que pode e então, diante de seus olhos encantados, o vento soprou a pandorga de um lado para o outro, mostrando a utopia enfim desterrada, a árvore acima do edifício e o edifício erguido em meio à mata.
E o sino tocou juntando o riso do poeta e aborrecendo os demônios.
Se o homem não perceber, todo sonho é possível.

Terça-Feira 05.02.2019 às 10:30

O novo, de novo.

André Alvez

O ano
O novo
O povo, o ovo.
A faca
A fama
O povo, o drama.
O feio
O feito
O efeito
Escorrem os dejeitos;
Num mar de lama...

Segunda-Feira 28.01.2019 às 09:47

Meu antigo quintal

André Luiz Alvez

QUINTAL 2.jpg

Do começo, guardo restos do pó daquele chão.

Era um quintal grande, um pé de Araticum na frente, bem próximo ao portão de madeira, barulhento e sem trinca.
No canto esquerdo, um enorme tronco de árvore, esticado, polido pelo tempo, onde minha avó batia a roupa e depois passava o sabão misturado com anil, combinando tudo com o azul das farpas da escova.

“Meu quintal é maior do que o mundo”, dizia Manoel de Barros. O meu quintal era bem menor e tinha medo do resto do mundo.
No centro, erguia-se o pé de manga e foi debaixo da sua sombra que notei os primeiros detalhes. Do graveto fiz lança e com ela passava horas futucando o chão, desencravando segredos, desvendando mistérios.

O maribondo do zumbido metálico não fazia buraco no chão à toa; era sua toca ou esconderijo, nunca soube ao certo.
Em dias secos, o vento formava redemoinho, e a gente se afastava ligeiro, porque diziam os antigos que o capeta estava no centro do redemoinho e bastava jogar um dente de alho que o bicho aparecia enfurecido.

Outro bicho estranho juntava pequenos gravetos, misturava com uma espécie de gosma e deixava grudado nos troncos das árvores. “Não mexa no casulo – alertava minha mãe – senão, pode matar a borboleta”.

Dentro do casulo, dormia um bicho feio e disso sei por que retirei um lá de dentro com ajuda do graveto. A luz do sol secou o bicho. “Era para ser uma linda borboleta” – bronqueou minha avó – e eu, num remorso sem perdão, passei noites mal dormidas.

O que uma borboleta fazia dentro daquele escafuncho?

Tempos depois, diante do imenso jardim florido, notei a ausência dos casulos, trocados pelo vôo colorido das borboletas.
Descobri então o espetáculo da metamorfose.

Na minha habitual inquietude, absorto diante das borboletas, procurei algum defeito e logo o encontrei, já armando no rosto um riso travesso: são lindas, mas não cantam  como as cigarras.

A paróquia ficava na esquina de casa e o padre aparecia de vez em quando, arrastando o portão, jogando água benzida pelos cantos, e então começou o meu medo de padre.

E o vento soprava tudo.

O pedaço de folha que se mexia, olhando de perto, era gafanhoto, às dezenas, num confronto de luzes com os besouros da couraça de brilho negro metálico.
Deus caprichou quando poliu os besouros.

No outono, as frutas caiam ao chão. Dentro da manga verde existia um pedaço branco semelhante a um bebê; fiz o parto, retirei o caroço, costurei com fios de cipó e deixei ao sol. Após alguns dias, a manga estava amarela e logo depois apodreceu, restando em mim o pavor de ter feito algo sem cura.

A nossa velha casa de madeira não tinha porão, mas foi lá que escondi os meus fantasmas.

Em um dia cinza, o sino da igreja badalou várias vezes num timbre triste. Minha avó tentou abafar o som do sino: “Deve ter morrido alguém” - Naqueles tempos, era muito difícil morrer alguém - “Quando morremos, viramos estrelas no céu”, ela disse e depois sorriu um riso de certeza.
Foi então que passei a notar as estrelas no céu.
O filho do vizinho era o responsável por tocar o sino da paróquia. Tinha o caminhar altivo e um olhar superior. Nunca entendi aquilo. Só porque tocava o sino? Marcos fazia pandorgas e para mim ele era infinitamente mais importante do que um reles tocador de sino.

Certa vez, ouvi um homem falar que qualquer um seria rico se encontrasse petróleo cavoucando o chão do quintal. Furei vários buracos, mas só encontrei formigas.
Elas me ensinaram que ser rico não era tão importante.

Marcos gostava de brincar de mágico: jogava um prego enferrujado num canto e o fazia mover com as mãos à distância.
Espantado, imaginei meu tio quase irmão dotado de poderes sobrenaturais.

No andar do tempo, fui registrando e ainda guardo na cabeça vários detalhes do antigo quintal: Beija-flor não picava a cachopa de maribondo, abelha não pousava na comida, sapo tinha medo de sal e inseto nenhum se atrevia atravessar o galinheiro.
Tempos depois, descobri que o Marcos não tinha nada de mágico, só era esperto, já sabia que o imã atraia o prego e o resto era teatro.

Ontem passeei pelo bairro, fixei os olhos no mesmo lugar onde antes havia o quintal e uma dor de saudade me apanhou diante do prédio enorme tapando o passado.

Restaram as estrelas, entre tantas, as duas que cuido com absoluto carinho, elas se chamam Marcos e Aurora e, mesmo no céu, ainda moram no nosso antigo quintal.

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