Domingo, 16.06.2019

Blog André Luis Alvez

Domingo 16.06.2019 às 12:07

Diante do espelho

André Luiz Alvez

Tenho costumes antigos; uma mania boba aqui, outra acolá, como aquela de coçar o cocuruto feito um macaco quando meu dou de frente com algo intrigante.
Também carrego o costume besta de rir sozinho, absorto pela imagem de cenas antigas, piadas mortas ou até mesmo por recordações de atitudes pueris.
Se não bastasse, faço contas com os dedos - pobres dos meus dedos - às vezes os transformo em jogadores de futebol chutando uma bola imaginária e até comemorando o gol.
Eu grito quando a dor nem é tão grande - qualquer aperto, já imagino a morte - sinto medo do escuro e roubo revistas nos consultórios.
Tenho uma vasta coleção.
Mas nada se compara à estranha mania de conversar com o espelho quando o dia recém amanheceu e os sonhos ainda caminham pela minha mente.
Nu, diante do espelho, descarrego profundezas.
É quando o verbo, pronome, metáfora e ênclise se misturam.  O banho quente primeiro, o escovar dos dentes depois, já com o banheiro tomado pela nuvem de vapor embaçando o espelho, logo após a briga corriqueira com a pasta de dentes que custou a sair do tubo.
Então ergo a cabeça e atrás do vidro embaçado, lá estou eu.
O outro eu.
Ele me encara, passa por nossas cabeças um filme completo do dia anterior, repleto de anotações de alguma coisa que eu podia ter feito diferente.
Sempre alguma coisa podia ter sido feita de outra forma.
Eu te conheço de algum lugar, pergunto ao espelho.
Ácido e ligeiramente torto, ele me responde: “velho, não percebe um filete de sangue nas gengivas?”
Estico as bolsinhas abaixo dos olhos ainda murchos de sono.
Detesto essas bolsinhas, elas me envelhecem de um tanto...
Rio um riso besta ao roçar com o dedo o pomo de Adão e a imagem no espelho faz o mesmo.
Depois se ergue, sorri, faz um sinal com a sobrancelha, como quem quer mostrar as rugas empurradas pelos vagões do tempo.
A bolsinha é pior – respondo – e sorrimos da própria desdita.
Talvez as rugas e as bolsinhas não sejam percebíveis.
Ele parece ler meu pensamento, balança a cabeça, “desde quando você se incomoda com o que os outros pensam a seu respeito?”
Sinceridade demais incomoda.
Faço com os ombros gestos de não estou nem aí.
Porquê escutar um sujeito que tem o coração do lado direito do peito? Chego mais perto sem me incomodar com o sorriso quase cínico.
Não é estranho? Cicatrizes mudam de lugar, mas a pintinha preta no canto da testa é sempre a mesma.
Para escapar do espanto, desenho no espelho um sol irregular, um quadrado torto e dos raios trêmulos.
Lembra quando a gente tinha cabelos? Era tão bom, afirmo, mas ele discorda: “dava muito trabalho, passávamos horas por aqui e no primeiro bafejar do vento desmontava-se tudo o que fora feito com tanto esmero.”
Esboçamos um sorriso contristado, repleto de cumplicidade.
Depois desabafo: é hipocrisia afirmar não se incomodar com o pensamento alheio.
O assunto morre, voltamos a sonhar, somos como os tais navegantes esquecidos numa balsa.
Onde você escondeu aquele menino que jogava bola? Qual aquela frase no túmulo do Salvador Allende? Onde foi enterrado o professor que você queria ser quando crescer?
Coço o cocuruto, vitupero, imagem estúpida, eu nunca quis ser professor. Ou será?...
Um finíssimo véu de gotas desce pelo canto da moldura, derrama a pressa feito lágrima e se desmancha entre os vãos da madeira.
De novo ele me encara, ausente de severidade, a cabeça quase deitada no ombro.
Tento escapar das rugas que novamente contemplo.
Em vão.
Eu queria ser poeta, desses bons de voar, só para encaixar, numa única frase, os meus olhos vermelhos dos tempos passados com a alegria de viver.
Loucos são os outros, penso enquanto visto a calça e depois abotôo a camisa.
Despeço-me num breve aceno.
“Tenha um bom dia, não se esqueça de fechar a porta, faz frio aqui sem você.” Não respondo, ele prossegue: “ conte-me tudo amanhã, quando a gente se encontrar novamente”, mas não me  atrevo a olhar de volta.  A brisa lá fora me convida a ser o homem liberto de Paulo Mendes Campos, e lá vou eu, abraçando o dia, preso a um pensamento constante que me faz coçar o cocuruto: preciso urgentemente acabar com as malditas bolsinhas abaixo dos olhos.


Sexta-Feira 22.03.2019 às 10:54

Se o homem não perceber

Eu queria escrever uma crônica linda, tão linda que alguém poderia supor ser um texto do Rubem Braga.
Presunção à parte, crônica só se escreve depois de enxergar o ar, quando os movimentos das ruas ou os ventos do passado nos mostram os encantos do dia.
Debrucei meus olhos lá fora e só encontrei frases soltas, indignas do Pirandello vendendo água no sinal fechado.
O que fazer quando a inspiração não se mostra em forma de crônica? Contar um conto, ora.
Pois bem, passeia na minha cabeça uma historinha que bem vale um conto. Ei-lo:
Entre as nuvens do céu cinzento, um facho de luz escapou indo iluminar a cabeça do menino que um dia seria poeta.
Somente ele notou a luz afagando seus cabelos e tentou apanhá-la com as mãos.
Depois sorriu, correndo se juntar aos outros meninos no sossego de soltar pandorgas.
O pequeno poeta vivia numa casa rosada, entre a cidade e a mata, bem ao meio.
Na estação dos ventos, foi quando começou a sonhar acordado, no instante sublime que o vento assoprou com força as folhas e derrubou as sementes. O homem não percebeu quando ele anotou os detalhes: eram diversos coelhos e olhavam para o topo do prédio distante, armados num brilho nos olhos vermelhos, como quem enxerga uma luz de pedra.
Apenas um deles restou ao fim do dia, exatamente o coelho diferente, das orelhas brancas e dos olhos mais brilhantes.
Após o frio, veio o primeiro dia da estação colorida, e o brilho das cores desenhou a coragem no coração do coelho.
À noite, os vagalumes iluminaram a escuridão e apontaram os perigos do chão úmido pelo sereno que caía.
O coelho chafurdou até encontrar a semente que julgou ideal e danou a saltitar para fora da mata, sem se preocupar com os perigos dos primeiros raios do sol.
O Homem não percebeu quando ele atravessou as avenidas da grande cidade, indo de encontro ao prédio que lhe gastava as vistas.
O homem sequer desconfiou quando o bicho escalou a parede de concreto até o pico.
A visão era larga, mas coelhos enxergam longe e ele logo percebeu, no exato local onde o sol batia, um punhado de terra esquecido na construção. Então cavucou ligeiro e jogou a semente.
Depois suspirou um respiro acelerado de coelho e tapou o buraco, enxugando por fim o suor do triunfo acima dos seus olhos vermelhos. Contemplou o feito numa euforia de raposa e só não sorriu porque coelhos não sabem sorrir.
O homem não percebeu quando ele retornou para a mata e lá se enfiou tentando abafar o acelerado medo de bicho.
Na estação do sol, o menino poeta sentiu um cheiro diferente no ar, mas engoliu a estranheza, capturado pelos gritos escapando dos becos.
Era uma turba de loucos que enxergaram no fundo da mata um vão de espaço no qual caberia um edifício.
Não pensaram, os loucos não pensam, apenas sonham, fazem da utopia um refúgio do abstrato.
O menino olhou os loucos se afastando; contou cada tijolo, os sacos de cimentos e o amontoado de areia que eles carregavam numa euforia insana.
Amarrados em seus insípidos cordões, os homens nada perceberam.
Os poetas, os loucos e os coelhos se entenderam num ritual de cumplicidade.
E vieram as outras estações.
Os loucos ergueram em meio à mata um enorme edifício e por lá se enfiaram, engalfinhados num cante de risos alucinantes.
Os homens não perceberam o cântico dos loucos, nem a trilha dos coelhos rumando até as paredes do enorme edifício.
O menino que seria um poeta já era rapaz, não soltava mais pandorgas, carregava enfiado no braço um caderno no qual tudo anotava.
E veio a nova estação e com ela os sinais no céu que os homens não perceberam.
Em meio à mata, entre árvores frondosas, o edifício de concreto rutilava entre as galhadas.
O poeta fez da folha do caderno a última pandorga; soltou a linha o máximo que pode e então, diante de seus olhos encantados, o vento soprou a pandorga de um lado para o outro, mostrando a utopia enfim desterrada, a árvore acima do edifício e o edifício erguido em meio à mata.
E o sino tocou juntando o riso do poeta e aborrecendo os demônios.
Se o homem não perceber, todo sonho é possível.

Terça-Feira 05.02.2019 às 10:30

O novo, de novo.

André Alvez

O ano
O novo
O povo, o ovo.
A faca
A fama
O povo, o drama.
O feio
O feito
O efeito
Escorrem os dejeitos;
Num mar de lama...

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