Segunda-Feira, 18.11.2019

Blog André Luis Alvez

Segunda-Feira 28.10.2019 às 08:10

As paredes da redoma

André Alvez

Às vezes, nesses tempos difíceis, ecoam na minha mente algumas palavras casadas – a tortura engolindo a arte, meu pescoço arde, o nó, o aperto. Acorda, a corda, pássaro preto. – Então desce do céu um zumbido de abelha, o barulho da cidade, tudo o mais, e as letras da crônica começam a dançar. Sossego meus passos diante do enorme edifício. Elevador de vidro, vista panorâmica, o meu destino é o vigésimo andar.  O copo de garapa só faz aumentar a minha sede, sede de água, um litro gelado, beber no gargalo, num gole só. Poeta bom é aquele que sofre e eu só sinto medo de cachorro, de dentista, de fardas e bandeiras, do homem fazendo gestos de armas com as mãos no lado direito da calçada, daqueles que não entenderam o sagrado significado da cruz, da violenta ignorância que mata uma criança em nome da paz. O elevador está no sétimo andar e não há ninguém ao meu lado. Sinto conforto, viajar sozinho não sufocará o meu grito. Como se fosse provocação, o elevador desce, a porta se abre e, no mesmo instante, ao meu lado se forma um grupo de nove pessoas.  Poeta bom é aquele que sofre, penso novamente e convoco a companhia de Belchior. Ele me encara, sorri. “medo, medo, medo” ele diz e de mim escapam palavras no pensamento, daquelas casadas, de papel passado – perto de mim há um teclado, mudo por enquanto, no tempo que observo as estrelas e espero a frase rimar. Perto de mim há uma garrafa de vinho, do álcool que não posso beber, reserva da vida que vejo passar. Perto de mim há vontades, sentimentos diversos, que exijo calar. Perto de mim há verdades de ninho e não consigo alcançar, perto de mim há um cálice... Eu venho, eu vinho. – Achei nos meus arquivos, será que escrevi isso? Sofro quando não descubro. O elevador chega, entro e me encaixo no aperto. Quem será que imaginou um elevador feito de vidros?  A senhora tímida, solitária, carrega uma bolsa enorme apertando os seios. Será o mesmo medo que o meu? Dois homens conversam sobre o sono, um não consegue dormir, o outro dorme demais. Olhei para eles num rosto carregado de respostas, domino o assunto, zolpidem é a solução, mas fiquei calado, o rosto ansioso refletido na parede de espelhos. A capa da morte é feita de vidro. Medo, medo, medo, cantamos, Belchior e eu. O casal troca olhares cúmplices, ele me cumprimenta num leve aceno de cabeça, ela usa cabelos coque e olha fixamente o piso do elevador. O brilho do relógio nos pulsos do senhor reflete as paredes da redoma e o abismo é ali também. Quem é que usa relógio de pulso nos tempos atuais? E se a luz apagar? Busco um desvio de pensamento, uma fraqueza boba – pensar forte faz acontecer. Duas pessoas descem no terceiro andar, mas outras duas entram no elevador. Preciso de algum assunto de asas – penso – e como se fosse combinado, um inseto pousa no lado de fora do vidro, se debatendo diante da visão falsa da liberdade. Bicho estúpido, basta virar para o lado e voar para longe, depois apanhar carona no vento até alcançar aquelas estranhas nuvens no céu. Belchior se apóia nos meus ombros, inverte a situação, ele sempre foi o meu apoio. O homem no canto se veste de forma elegante, usa gravata, o cabelo grudado de brilhantina, tem o rosto seguro, não se importa com a possibilidade do vidro arrebentar de repente e estragar o seu penteado.  Belchior resolve assoprar no meu ouvido uma canção: “meu coração cuidado é frágil, meu coração é como vidro”... E sorri enquanto me afasto até o canto. A fragilidade do vidro é como uma folha de livro ao vento.  O inseto já não insiste, quieto, absorto na languidez dos derrotados. Entorto os olhos, dou de frente com outro senhor, vestido de forma simples, calça jeans, camisa de algodão, o sapato de couro marrom, deve ter a minha idade, sinto uma alegria efêmera, como quem se alegra ao ver um companheiro de batalhas – éramos jovens nos anos oitenta – penso num sorriso e ele parece captar, num sorriso de retorno; conto na mente cada ruga do seu olhar e fico imaginando que pinta os cabelos, porque as bolsas inchadas abaixo dos olhos não combinam com o brilho negro dos fios esvoaçantes na cabeça murcha. Duas pessoas descem no quinto andar, a religiosa faz o sinal da cruz, o cabelo da moça da borboleta tatuada no braço deixa um rastro de lavanda. Todos descem quase ao mesmo tempo, restando Belchior e eu nos cinco ou seis andares que faltam.
Poeta bom é aquele que sofre – Na redoma de vidro, o poeta sofrido, o inseto, o dilacerante zumbido, meus medos, Belchior, no sopro bemol, engolindo o sustenido –
De repente, num bafejo do vento, o inseto encontra a liberdade, o vôo torto para longe, o final da angústia. Fecho os olhos, imagino a alegria das asas rumando em busca das nuvens ligeiras em formas de pombas no céu. Vigésimo andar, luz verde, alívio, vida.
Na volta, optarei pelas escadas, sairei à rua apressado, o medo jogado fora e arrancando do peito a dor do poeta que não sou. E que tudo mais vá para o céu, como já disse o poeta Belchior.

Quinta-Feira, 01.08.2019 às 08:13

Meus olhos são verdes enquanto sonho

André Alvez

OLHO VERDE.png


Saudade é um punhado de areia nos olhos.
Penso no passado enquanto a pressa entra pelos vãos do vidro do carro. Perto de casa existe um campinho de futebol, observei de soslaio, dias atrás, naquele breve momento que a febre da pressa me abandonou.
E vi um menino correndo num campo de terra atrás de uma bola velha. Areia nos olhos...
Ah, minha mãe, me conte histórias, de quem era aquela carroça atravessando a Avenida Contorno, o caminho cheirando estrume de cavalo, me levando de passageiro?
Hoje apenas sonho com aquelas manhãs fagueiras, reencontro o mesmo céu bordado de estrelas e nele voam as asas ligeiras das borboletas azuis que versou o poeta Cassemiro de Abreu.
Eu não deveria sentir saudades daqueles tempos rudes, mas sinto. E sonho às vezes.
Meus filhos eram pequenos quando acelerei a vontade de vê-los crescidos. Agora que cresceram, não tenho como fazer o tempo voltar e sinto saudades de quando suas mãos pequenas abraçavam o meu rosto. As folhas das árvores caíram e os outonos se foram, apressados como eu. Uso um relógio de pulso dos ponteiros grandes parados, mas os segundos atropelam os pensamentos.
Meus olhos mudavam de cor quando eu era menino; pela manhã eram castanhos, quando o sol se punha se transformavam num quase verde e assim prosseguiam durante o sonho. Ninguém me disse isso, ninguém percebeu, mas eu imaginava assim.
O acelerador é mais atraente que o freio.
Agora, sentado diante do computador, revejo passo a passo como foi meu dia até aqui: eu tinha tempo, mesmo assim, atravessei o sinal fechado.  Na outra esquina, um pedinte deixou pendurado no retrovisor um pacote de balas. Eu tinha um real jogado no console e mesmo assim recusei as balas, sequer olhei nos olhos do pedinte. Acelerei, eu tinha tempo, ainda assim, não cumprimentei o frentista, nem sei a cor dos seus olhos, que talvez mudem de cor ao cair da noite, quem sabe?
Acelerei novamente enquanto a chuva caía formando a enxurrada que não levou embora a minha pressa.
Nuvens invadiram meu pensamento: faltou tempo para visitar aquele amigo antes dele morrer. Deixar para depois foi mais confortável - suspiro. Aos poucos, vou me esquecendo do seu rosto e o som da sua risada, restando a nuvem opaca do último cigarro que fumamos, turvando o meu olhar. Na pressa, o cinzeiro ficou cheio e o cigarro acabou.
E a nuvem prosseguiu confrontando minha ânsia; a minha tia, que ajudou a me criar, falta tempo para ir visitá-la.
Eu vou tia Eurinda, assim que essa pressa acabar.
Os minutos são pura abstração, por que usei de reticências quando necessitava apenas de um ponto final?
Borges escreveu que na fúria da pressa Demócrito de Abdera arrancou os olhos para não se distrair e poder pensar. Demócrito me causa anseios e medos: que será de um homem com tempo para pensar, mas sem os olhos de ver?
Meus pés prosseguem ligeiros, embora as portas que hoje atravesso não façam tanto ruídos e o verde já não invade meus olhos nos fins de noite.
Venha Dona pressa, chegue perto, tenho algumas coisas para lhe dizer: é preciso perceber o vôo colorido da borboleta, antes que morram as lagartas. E se as abelhas não mais existirem quando enfim a pressa acabar e não restar um único favo do mel? É preciso ver a alvorada, da praia ou da beira do rio, enquanto existe o sol.
Vá embora Dona pressa, que meus olhos já não são verdes quando o dia termina e um deles já se zangou com o tempo.
Ah minha mãe, me conte histórias, daquelas de quando as fontes brotavam na terra, antes que tudo se transforme em areia e essa mesma areia, um punhado dela, se esparrame em nossos olhos no tempo que nos resta, se transformando em rios de saudades.
Os deuses dormem sem pressa, sabem que o fim dos tempos ainda demora e a pressa dos homens nada mais é que a escravidão do próprio homem.
E é por isso que eu sonho. No sonho não tenho pressa e lá, sem que ninguém perceba, meus olhos continuam verdes.

Domingo 16.06.2019 às 12:07

Diante do espelho

André Luiz Alvez

Tenho costumes antigos; uma mania boba aqui, outra acolá, como aquela de coçar o cocuruto feito um macaco quando meu dou de frente com algo intrigante.
Também carrego o costume besta de rir sozinho, absorto pela imagem de cenas antigas, piadas mortas ou até mesmo por recordações de atitudes pueris.
Se não bastasse, faço contas com os dedos - pobres dos meus dedos - às vezes os transformo em jogadores de futebol chutando uma bola imaginária e até comemorando o gol.
Eu grito quando a dor nem é tão grande - qualquer aperto, já imagino a morte - sinto medo do escuro e roubo revistas nos consultórios.
Tenho uma vasta coleção.
Mas nada se compara à estranha mania de conversar com o espelho quando o dia recém amanheceu e os sonhos ainda caminham pela minha mente.
Nu, diante do espelho, descarrego profundezas.
É quando o verbo, pronome, metáfora e ênclise se misturam.  O banho quente primeiro, o escovar dos dentes depois, já com o banheiro tomado pela nuvem de vapor embaçando o espelho, logo após a briga corriqueira com a pasta de dentes que custou a sair do tubo.
Então ergo a cabeça e atrás do vidro embaçado, lá estou eu.
O outro eu.
Ele me encara, passa por nossas cabeças um filme completo do dia anterior, repleto de anotações de alguma coisa que eu podia ter feito diferente.
Sempre alguma coisa podia ter sido feita de outra forma.
Eu te conheço de algum lugar, pergunto ao espelho.
Ácido e ligeiramente torto, ele me responde: “velho, não percebe um filete de sangue nas gengivas?”
Estico as bolsinhas abaixo dos olhos ainda murchos de sono.
Detesto essas bolsinhas, elas me envelhecem de um tanto...
Rio um riso besta ao roçar com o dedo o pomo de Adão e a imagem no espelho faz o mesmo.
Depois se ergue, sorri, faz um sinal com a sobrancelha, como quem quer mostrar as rugas empurradas pelos vagões do tempo.
A bolsinha é pior – respondo – e sorrimos da própria desdita.
Talvez as rugas e as bolsinhas não sejam percebíveis.
Ele parece ler meu pensamento, balança a cabeça, “desde quando você se incomoda com o que os outros pensam a seu respeito?”
Sinceridade demais incomoda.
Faço com os ombros gestos de não estou nem aí.
Porquê escutar um sujeito que tem o coração do lado direito do peito? Chego mais perto sem me incomodar com o sorriso quase cínico.
Não é estranho? Cicatrizes mudam de lugar, mas a pintinha preta no canto da testa é sempre a mesma.
Para escapar do espanto, desenho no espelho um sol irregular, um quadrado torto e dos raios trêmulos.
Lembra quando a gente tinha cabelos? Era tão bom, afirmo, mas ele discorda: “dava muito trabalho, passávamos horas por aqui e no primeiro bafejar do vento desmontava-se tudo o que fora feito com tanto esmero.”
Esboçamos um sorriso contristado, repleto de cumplicidade.
Depois desabafo: é hipocrisia afirmar não se incomodar com o pensamento alheio.
O assunto morre, voltamos a sonhar, somos como os tais navegantes esquecidos numa balsa.
Onde você escondeu aquele menino que jogava bola? Qual aquela frase no túmulo do Salvador Allende? Onde foi enterrado o professor que você queria ser quando crescer?
Coço o cocuruto, vitupero, imagem estúpida, eu nunca quis ser professor. Ou será?...
Um finíssimo véu de gotas desce pelo canto da moldura, derrama a pressa feito lágrima e se desmancha entre os vãos da madeira.
De novo ele me encara, ausente de severidade, a cabeça quase deitada no ombro.
Tento escapar das rugas que novamente contemplo.
Em vão.
Eu queria ser poeta, desses bons de voar, só para encaixar, numa única frase, os meus olhos vermelhos dos tempos passados com a alegria de viver.
Loucos são os outros, penso enquanto visto a calça e depois abotôo a camisa.
Despeço-me num breve aceno.
“Tenha um bom dia, não se esqueça de fechar a porta, faz frio aqui sem você.” Não respondo, ele prossegue: “ conte-me tudo amanhã, quando a gente se encontrar novamente”, mas não me  atrevo a olhar de volta.  A brisa lá fora me convida a ser o homem liberto de Paulo Mendes Campos, e lá vou eu, abraçando o dia, preso a um pensamento constante que me faz coçar o cocuruto: preciso urgentemente acabar com as malditas bolsinhas abaixo dos olhos.


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