Segunda-Feira 23.12.2019 às 08:53

As duas calçadas

André Alvez

Quando olhei em torno de mim, o ruído de antes estava lá, despencando das paredes rachadas, carcomidas pelo tempo, assombrado pelo silêncio reinante, como se cumprisse um pacto para não despertar os fantasmas do hotel Gaspar.

Senti então o inesperado peso no corpo, a magia de um sortilégio, como se estivesse carregando minha casa nos ombros, feito um caramujo, passeando devagar pela calçada deserta, repleta de luzes e espinhos do tempo, pesada feito uma rocha apaixonante. 

Ah o vento, esse amigo inseparável que nunca dorme, assoprando na minha testa imagens do ontem, trazendo o tamborilar das gotas geladas que molhavam minha roupa, provocando a vontade de correr da chuva e me abrigar numa daquelas portas.

Já não existe a chuva e todas as portas estão fechadas.

A chave gira na fechadura do tempo – outro velho conhecido – ouço vozes, sinto passos enquanto  um som de berrante distante escapa de um facho de luz , desenhando o contraste das calçadas: de um lado os comerciantes turcos, do outro lado bares e prostíbulos,  a boca do lixo , frente a frente, se cumprimentado num tom de respeito, como se fossem parte de uma única célula da cidade que crescia.

O relógio gigante da loja da esquina rugia um tic tac incessante, mas agora parou de girar.

Uma vertigem, a brutal realidade atual, um ar de completo abandono percorrendo as paredes em volta de mim e o pensamento me cala de vez: se não fosse a guerra, não existiriam as calçadas e as minhas letras (talvez) contariam outros sonhos.

 Um carro avança apressado, saindo feito um raio do viaduto da Rua Antonio Maria Coelho. O motorista não sabe, antes, ali só existia o monte de grama grudado nos trilhos e meus olhos de menino estavam perto quando a prefeitura resolveu fazer um corredor na lateral do viaduto – uma luz viva na memória guarda o momento da inauguração – três homens usando terno e gravata fizeram comício, um deles exaltou o grande feito da engenharia, citou Pitágoras, falou do  arco do triunfo e explodiram os aplausos.

O prefeito surgiu logo depois, vindo pela calçada do lado dos turcos, usava bombacha, camisa de algodão, chapéu de abas largas, botas pretas do brilho intenso, em contraste com o sol queimando o seu rosto rosado e banhado de suor. Era um homem de poucas falas, ouviu num sorriso os discursos e disse no fim: “então está feito, vamos embora!” E voltou pelo outro lado da calçada, abarrotada de gente; os bêbados pararam o jogo de sinuca, as prostitutas abriram os braços deixando os seios quase escapando pelos vestidos coloridos, gritaram o nome do prefeito e ele respondeu com sorrisos e acenos de chapéu. O repórter calvo correu atrás, falando ao microfone numa pressa de quem tem fome e foram desaparecendo diante dos meus olhos, até se perderem detrás do prédio da loja consumida pelo incêndio tempos antes.

Olhos no céu de hoje. A porta do primeiro bar ainda é a mesma na qual vi de perto meu primeiro morto, caído três passos adiante, fedia cachaça e da barriga escapava um fio de sangue, os olhos abertos, o bigode áspero espumando a angústia do fim. O repórter calvo estava lá, “direto da boca do lixo, um morto caído na calçada, esfaqueado numa briga de bar”, disse num tom de voz arrepiante.

Se não fosse a guerra, não existiriam as calçadas, as rádios, a cidade.

Eu não ligava para a chuva, gostava de andar com a camisa encharcada. Quando o patrão precisava de troco, entrava na boca do lixo como quem entrava nas lojas, as prostitutas sempre tinham dinheiro miúdo, os bêbados também.

As pétalas das flores ainda não tinham se aberto para mim e enxergava as prostitutas como se fossem as donas dos bares, o sorriso sempre estampado no rosto abarrotado de ruge e batom.

Elas vieram com a guerra...

A música que eu gostava falava de bêbados trajando luto, mas os meus bêbados vestiam camisa em listrado, usavam botas, chapéus de couro ou de palha e bebiam pinga como um perdido no deserto. Ainda agora ouço o repicar das bolas se chocando na mesa de sinuca. Outra música falava de uma nuvem passageira e agora eu sei o tanto que ela é ligeira.

Paro na esquina das ruas que antes ferviam e ninguém mais escuta o som do berrante, quase ninguém sabe da guerra, não existem mais as vozes das calçadas, nem mesmo os risos, o cheiro de pinga de um lado, do couro de sapato no outro. Restam as paredes caindo e o amedrontoso silêncio. Acaricio as paredes dos quartos da casa que carrego nas costas, ela permanecerá ali, desabando enquanto as gotas da chuva – lágrimas turvas e quentes – despencam do barranco do viaduto, em busca do rio escondido abaixo do asfalto na esquina, ao som distante de um lamentoso berrante.