Domingo, 25.08.2019

Blog André Luis Alvez

Domingo 16.06.2019 às 12:07

Diante do espelho

André Luiz Alvez

Tenho costumes antigos; uma mania boba aqui, outra acolá, como aquela de coçar o cocuruto feito um macaco quando meu dou de frente com algo intrigante.
Também carrego o costume besta de rir sozinho, absorto pela imagem de cenas antigas, piadas mortas ou até mesmo por recordações de atitudes pueris.
Se não bastasse, faço contas com os dedos - pobres dos meus dedos - às vezes os transformo em jogadores de futebol chutando uma bola imaginária e até comemorando o gol.
Eu grito quando a dor nem é tão grande - qualquer aperto, já imagino a morte - sinto medo do escuro e roubo revistas nos consultórios.
Tenho uma vasta coleção.
Mas nada se compara à estranha mania de conversar com o espelho quando o dia recém amanheceu e os sonhos ainda caminham pela minha mente.
Nu, diante do espelho, descarrego profundezas.
É quando o verbo, pronome, metáfora e ênclise se misturam.  O banho quente primeiro, o escovar dos dentes depois, já com o banheiro tomado pela nuvem de vapor embaçando o espelho, logo após a briga corriqueira com a pasta de dentes que custou a sair do tubo.
Então ergo a cabeça e atrás do vidro embaçado, lá estou eu.
O outro eu.
Ele me encara, passa por nossas cabeças um filme completo do dia anterior, repleto de anotações de alguma coisa que eu podia ter feito diferente.
Sempre alguma coisa podia ter sido feita de outra forma.
Eu te conheço de algum lugar, pergunto ao espelho.
Ácido e ligeiramente torto, ele me responde: “velho, não percebe um filete de sangue nas gengivas?”
Estico as bolsinhas abaixo dos olhos ainda murchos de sono.
Detesto essas bolsinhas, elas me envelhecem de um tanto...
Rio um riso besta ao roçar com o dedo o pomo de Adão e a imagem no espelho faz o mesmo.
Depois se ergue, sorri, faz um sinal com a sobrancelha, como quem quer mostrar as rugas empurradas pelos vagões do tempo.
A bolsinha é pior – respondo – e sorrimos da própria desdita.
Talvez as rugas e as bolsinhas não sejam percebíveis.
Ele parece ler meu pensamento, balança a cabeça, “desde quando você se incomoda com o que os outros pensam a seu respeito?”
Sinceridade demais incomoda.
Faço com os ombros gestos de não estou nem aí.
Porquê escutar um sujeito que tem o coração do lado direito do peito? Chego mais perto sem me incomodar com o sorriso quase cínico.
Não é estranho? Cicatrizes mudam de lugar, mas a pintinha preta no canto da testa é sempre a mesma.
Para escapar do espanto, desenho no espelho um sol irregular, um quadrado torto e dos raios trêmulos.
Lembra quando a gente tinha cabelos? Era tão bom, afirmo, mas ele discorda: “dava muito trabalho, passávamos horas por aqui e no primeiro bafejar do vento desmontava-se tudo o que fora feito com tanto esmero.”
Esboçamos um sorriso contristado, repleto de cumplicidade.
Depois desabafo: é hipocrisia afirmar não se incomodar com o pensamento alheio.
O assunto morre, voltamos a sonhar, somos como os tais navegantes esquecidos numa balsa.
Onde você escondeu aquele menino que jogava bola? Qual aquela frase no túmulo do Salvador Allende? Onde foi enterrado o professor que você queria ser quando crescer?
Coço o cocuruto, vitupero, imagem estúpida, eu nunca quis ser professor. Ou será?...
Um finíssimo véu de gotas desce pelo canto da moldura, derrama a pressa feito lágrima e se desmancha entre os vãos da madeira.
De novo ele me encara, ausente de severidade, a cabeça quase deitada no ombro.
Tento escapar das rugas que novamente contemplo.
Em vão.
Eu queria ser poeta, desses bons de voar, só para encaixar, numa única frase, os meus olhos vermelhos dos tempos passados com a alegria de viver.
Loucos são os outros, penso enquanto visto a calça e depois abotôo a camisa.
Despeço-me num breve aceno.
“Tenha um bom dia, não se esqueça de fechar a porta, faz frio aqui sem você.” Não respondo, ele prossegue: “ conte-me tudo amanhã, quando a gente se encontrar novamente”, mas não me  atrevo a olhar de volta.  A brisa lá fora me convida a ser o homem liberto de Paulo Mendes Campos, e lá vou eu, abraçando o dia, preso a um pensamento constante que me faz coçar o cocuruto: preciso urgentemente acabar com as malditas bolsinhas abaixo dos olhos.


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