Domingo, 05.04.2020

Blog André Luis Alvez

Terça-Feira 09.10.2018 às 02:50

O grito, serendipia!

André Alvez

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Nesses dias nebulosos, descobri que de tempos em tempos, quase inconscientemente, me apego a alguma palavra. O movimento do trânsito me enlouquece, ligo o rádio, música gospel, música sertaneja, notícias... Vou girando o botão na ânsia louca de sintonizar uma música suave. Um carro enorme passa ao lado, trás no vidro traseiro retratos de rostos incendiados, imaculados pelos incautos e dentro de mim o grito se forma. Para muitos, o bizarro é bonito. Sussurro a palavra do momento: serendipia. A colega cronista Lucilene Machado – curvo a cabeça, agradecido - desencavou essa palavra e a jogou diante dos meus olhos para nunca mais escapar. Assim, antes de gritar, eu digo para mim mesmo: serendipia. E tudo se acalma. É isso ou um ópio qualquer. Prefiro a doçura da palavra.  Meus dedos não necessitam dos olhos para girar o botão de sintonia do rádio, na sexta tentativa, enfim, me permito ser invadido pelo som mavioso da voz de Elis, “O bêbado e a equilibrista”, e sorrio num leve balançar de cabeça enquanto os versos da canção descortinam a história diante dos meus olhos. O bêbado representa os artistas, a equilibrista é a democracia, se equilibrando na corda bamba. Aldir Blanc, você é genial! Serendipia é uma palavra de origem espanhola, cujo significado remete a uma descoberta feita ao acaso. Na mente desfila a mensagem de um jovem nas redes sociais; é o ódio, o equívoco, a contradição. Serendipia! “Quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo”. Esse aforismo de Santayana provoca em mim um riso de certezas. Tenho o costume de sorrir, no contentamento e no espanto, mesmo o grito seco ainda preso na garganta. Quase sempre, gritar é libertador, eu sei, mas no abafo, no murmurar palavras, encontro a fórmula irresistível para acalmar meu desassossego. Ah, o grito... Já sentiu vontade de gritar, assim, do nada, em público, numa daquelas palestras chatas e intermináveis, ou quando algo completamente incompreensível acontece de repente? Prossegue o desfile das carruagens de fogo e ira. Prendo o desabafo na garganta e não é um grito qualquer, é a pintura de Munch, com as mãos presas entre os ouvidos, a boca bem aberta, caminhando enlouquecido pelo mesmo sinistro corredor presente na cena de "O iluminado", até encontrar uma cortina aberta, assoprada pelo vento. O sorriso de um menino poeta surge na minha mente. Ali encontro o meu refúgio. Ainda assim, não fosse o som dos pingos da chuva no para-brisa, num ritmo suave formando a palavra serendipia, gritaria diante da tempestade que se mostra adiante. O menino poeta é o símbolo de um resto de esperança, um Carlitos oferecendo o chapéu, seduzindo tantos outros, atraídos pelas palavras que despencam de suas mãos. Que pena o contraponto, reconhecer entre os bêbados a cruel poesia, feito anátema, deslizando em longos fios de cabelos negros, espantosamente, chupando manchas torturadas. Chora o menino do sorriso lindo o mesmo pranto de Marias e Clarices. Serendipia, penso, respiro, me acalmo:  depois da tempestade, a esperança equilibrista haverá de voltar. Meu grito é o bêbado, serendipia é meu equilíbrio. No semáforo fechado as nuvens negras sobrevoam a cidade, o mata-borrão do céu agora é muito maior, permeado pelo cego fanatismo. Murmuro levemente: serendipia... Há um rosto atrás do grito - enquanto os carros passam - meus olhos tentam enxergar as curvas do caminho; talvez se percam na esquina e o desastre não aconteça. E a tarde cai novamente feito um viaduto, restando em mim o último sopro da utopia, a palavra desprendida da garganta, bem devagar, separada em saborosas sílabas da esperança equilibrista: serendipia! Grito novamente e sorrio. Na corda bamba de sombrinha, o grito precisa ecoar.

Terça-Feira 18.09.2018 às 08:18

O beija-flor do mundo paralelo

André Alvez

BEIJA FLOR.jpg

E a cidade amanheceu coberta de névoa.

O dia para mim não começa antes do café da manhã, mas faltou manteiga para passar no pão e lá fui eu ao supermercado, enfrentando o trânsito e a névoa.

Há mistérios intrínsecos em cada palmo daquele lugar.

Ao descer do carro, um beija flor resolveu me acompanhar.

O bicho foi e voltou, na velocidade da luz e fiquei envolto a perguntas: Será que só eu estou vendo o passarinho? Por que uma ave tão bela não sabe cantar? Beija flor não tem cor definida, é um prisma, uma mistura de água e luz, um arco-íris voador, mas esse meu beija-flor, claramente, é preto.

Bem próximo da porta de entrada, o beija-flor sumiu como o diabo fugindo da cruz.

Dois passos após a risca de entrada, tal qual Alice ao cair no buraco, vou de encontro a um hospício repleto de loucos livres.

Um velhinho contando notas olha para mim num angelical riso de Quintana.

 Atrasei alguns passos diante do olhar seco do segurança, um homem de aspecto rude, parecido a um personagem de romance não identificado no momento.

Uma senhora dos cabelos curtos passa por mim, trás no colo uma sacola amarfanhada e os olhos cobertos numa aura de tristeza. Florbela agarrada a uma sacola de versos - imaginei.

Ouvi murmúrios da quase certeza de que estava diante do mundo paralelo.

A imensa fila do caixa fez aflorar os meus sentidos.

Um casal se posicionou ao meu lado.

Identifiquei-os em poucos segundos: Bukowski e Hilda Hilst.

Falavam mal da neblina e anotavam os defeitos dos vizinhos.

Imaginei um quadro diferente, bucólico, uma mesa de bar, Bukowski num canto, Hilda num outro, a fumaça do cigarro como se fosse o néctar das flores e o beija flor voando entre os dois. Logo entrariam em conflito, no exato instante no qual se dariam com a minha presença; e enquanto o velho Burka proferisse algum palavrão, Hilda lançaria sobre mim um olhar sepulcral, daqueles de tormentos, diria sem muito pensar: “por que você não manda embora esse velho beberrão?”

A imagem sumiu, restou o casal e os olhos arregalados para mim. Balancei a cabeça, ficaram sem graça no mundo paralelo, um Bukowski abstêmio e uma Hilda sem cigarros.

Devo ter falado alguma coisa.

Riram um riso sem graça, trocaram olhares, como se estivessem enxergando o diabo. Timóteo alguma coisa, disse a mulher. O homem concordou, sorriram novamente e depois me ignoraram para sempre.

Na outra fila, uma conversa de pai com filho, embora a figura, um careca de barba ao lado do rapaz loiro dos olhos verdes, evocava Verlaine e Rimbaud.

A fila andou um pouco e ainda restava em minha boca o solitário desejo por um gole de café.

Enfim a minha vez.

A moça do caixa se abriu num sorriso estranho, de segredos.

Um dia ela sonhou que seria psicóloga - imaginei.

Sempre acho que toda moça do caixa queria ser psicóloga quando criança.

“O senhor aceita participar do troco solidário?”

Sim, ok, respondo, e a custo contenho a vontade de lhe dizer que ainda há tempo para ser psicóloga.

E o velhinho ressurge, galopando o mesmo sorriso angelical, olha para mim e para a moça do caixa, nada diz, mas sei que pensa o complemento: “Cuidado, quando se vê passaram cinqüenta anos!”.

Caminho para a saída, dou de frente com o segurança, ele tem a cara do Heathcliff, descubro afinal e sinto até a poeira espalhada na capa do Morro dos ventos uivantes, guardado com carinho na minha estante. Nunca soube definir se Heathcliff é herói ou vilão.

Ao sair, o beija-flor estava lá fora, esperando por mim, rodeando meus ombros, sumindo às vezes, aparecendo mais à frente, e eu, feito um louco em devaneio, conversei com ele antes de bater a porta do carro: não sou flor que se cheire, vejo escritores mortos!

E o bicho sumiu de vez ao roncar do motor do carro, se perdendo entre a névoa.

Não olhei para trás. O mundo paralelo às vezes desaparece...

Terça-Feira 31.07.2018 às 09:00

A flor que muda de cor

André Alvez

Existem em mim pequenas explosões pedindo mudanças. Essa crônica era para se chamar “Metamorfoses”, mas seria um nome óbvio demais. Ontem foi o dia do escritor, pensei então fazer uma junção, e o nome passou a ser “A metamorfose de um escritor em seu dia de casulo”. Ponderei, porém, escritor não tem dia, tem momentos, e o novo nome ficou mais complicado: “Metamorfose de momentos de um escritor no casulo”.
Resolvi decidir depois do fim.
Esses pensamentos duram um minuto, tempo que fico com a boca aberta, um sorriso permanente na cara, olhos fixos num local aleatório.
Ocorre então o estalo, retorno trazendo nos olhos a imagem enquanto pensava: uma flor pequena e frágil, exposta no canteiro do lado de fora da janela do meu escritório; feinha, mirradinha, do talo crespo e das folhas secas.
A flor forma um sorriso, acena o convite ao velho passeio, faz surgir um quadro guardado na memória,
 Saudade é aquela dor gostosa, um pontinho na testa, coça como casca de ferida secando e a gente cutuca, para não deixar nada se perder.
E lá estava minha avó, numa imagem de tapar os olhos, porque o sol ardia na rua sem asfalto, encharcando a testa de suor.
Depois do muro de balaústre existia o meu quintal e nele jazia num canto essa mesma flor, levemente diferente, com um casulo grudado no talo, guardando a lagarta, até um amanhã no qual emergiria a borboleta em seu primeiro vôo.
Metamorfoses sempre me atraíram; sou o cara do comercial na tevê, sou também o dono de uma empresa de ar condicionado e aquele senhor que fez a turba sorrir no teatro, se transformando numa senhora de poucas virtudes, num médico biruta ou teve crises na pele de um velho com sotaque italiano.
Metamorfose é febre.
Eu já fui tímido, calado, retraído, só depois dos quarenta o teatro entrou em mim e, desde então, consigo ouvir o murmurinho da inquietude antes escondida, depois a estranha sensação de efervescência, e de repente sou outro, nova casca, olhar noutra direção, o casulo jogado fora e um par de asas prontas para voar.
No meu rosto marcado por certezas, imagino outras metamorfoses, mas a terrível dor do medo não me permite enxergá-las com exatidão.
O quintal de antes surge novamente.
Minha avó tinha o nome ligado à natureza: Aurora. Ela também se transformava, era tomada pela febre, sabia benzer e escrevia orações escutadas dos espíritos.
Quando se aproximava e trazia a celha carregada, olhava para a flor, acariciava o casulo com uma mão, a outra grudada na testa: ‘será uma borboleta vermelha!’ Então sorria. Dias depois, asas vermelhas se abriam para o vento e restava o casulo oco arrastado pelo vento.
Lolinha sabia quando cairia a chuva só de olhar as plantas: “elas se encolhem, envergam em conchas, pedindo água” afirmava em tom austero e era dito e feito.
Sobretudo em dias sofridos, falava com a flor: “se aquieta, ainda não é momento de mudanças”. E a flor abraçava mais forte o casulo, pensativa, sem sorrir, mas se sentindo protegida das garras das abelhas.
Aurora assopre em meus ouvidos a cor da borboleta que virá depois da tempestade trazendo a bonança!
Ó Deus, se tu existes, um dia me conta onde foi que guardou a minha avó!
Novamente fixo os olhos na flor e não vejo mais o sorriso. Sente falta do casulo? Ou será receio pela descoberta de novas metamorfoses?
Se pudesse falar comigo, aquela flor, sensível como todas, rebateria minhas dúvidas, devolveria algumas certezas, mostraria o caminho à irrecusável metamorfose.
Aprecio metamorfoses, mas sinto o medo quase infantil de mudanças.
Então abate-se o atro escuro da pedra, abruptamente me transformo num senhor casmurro, penso na tarefa do dia, o dinheiro que preciso ganhar e recuso tudo o mais desprendido daquela flor.
Sei, no entanto, preciso saber onde ela guarda a semente, e assim, manter imorredoura todas as metamorfoses.
Um dia, quem sabe...
E a flor fita o chão sem sorrir, mas é coisa de momento.
Embora pairem sobre seus galhos algumas dúvidas, do lado de fora da janela, eu sei, suas pétalas mudam de cor.

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