Sexta-Feira, 17.01.2020

Blog André Luis Alvez

Segunda-Feira 16.12.2019 às 03:15

O sorriso da orquídea

André Alvez

GEORGE SAND.jpg

Eleanor imaginou que talvez somente ela tivesse reparado a mudança; as cores das flores do jardim estavam diferentes, o verde caído, o brilho fosco nas margaridas, a rosa vermelha transformada em cinza e o jasmim com as pétalas abertas num branco sem vida.

Carlos dizia enxergar o sorriso das flores. Num passeio, entrou na mata à procura de tesouros e de lá retornou trazendo um pedaço de tronco de árvore com um filete de rama verde escapando entre as frestas da madeira.

Eleanor sorriu surpresa, ele tratou de pôr fim ao espanto: “é uma orquídea, deste tronco logo nascerá uma das mais belas flores do universo”, disse enquanto repousava o tronco da árvore no seu colo. Naquele instante, dos olhos de Carlos escapou um brilho intenso transformado numa lágrima incontida de canto, enxugada às pressas nas mãos trêmulas de emoção.

Eles não sabiam, aquela lágrima era sinal de adeus. “Um dia, me encontre numa flor”, foram as últimas palavras de Carlos.

Para matar o luto, Eleanor coloriu o quintal da casa com flores diversas, mas nenhuma conseguia resplandecer brilho suficiente para suportar tamanha dor.

Do tronco que guardava a orquídea – cuidadosamente preso a um arame na parede da varanda – brotou uma flor magnífica, de três pétalas marrons e no centro a figura de um macaco. Olhando atentamente, a orquídea parecia lhe sorrir. Era espantosa e ao mesmo tempo cativante. As lentes dos óculos estão novamente embaçadas, pensou. Mas após esfregá-las com todo cuidado, e lançar o rosto até junto à planta, o macaco permanecia lá, mostrando o seu indefectível sorriso.

O passar dos dias, perdurando na mente a amarga angústia, transformou o rosto de Carlos na mesma feição dolorida de Rimbaud. “Me encontre numa flor”, a frase incessante assoprada pelo vento a fez recordar um livro antigo que falava sobre o sorriso das flores após a tempestade. Procurou-o até encontrar.

Antes de enlouquecer, porque começou a falar com a orquídea como se fosse Carlos, resolveu mudar a planta de lugar, num galho do pé de magnólia, pouco distante da janela do quarto de dormir.

No apagar das luzes, entre o cochilo preso nas pálpebras cansadas, restava o brilho fraco do vidro da janela, um último olhar de soslaio. E lá fora, o macaco prosseguia sorrindo, apontado para ela suas pétalas marrons, como quem pede um abraço.

De repente a luz do sol invadindo o quarto, outro dia, o sono pesado que a fez desabar pelos lençóis da cama pouco antes. O levantar trôpego, as mãos tateando o nada à procura dos óculos, a garganta seca pela estiagem, ardendo no gole do copo d’água que deixou pela metade, atiçada pelo bater de asas dos beija-flores na varanda da vizinha. Por que os beija-flores de repente só se vestem de cinza? 

Na brisa lá de fora sentiu o cheiro das plantas, o mesmo de sempre, mas as cores das flores estavam diferentes.  O céu cinza sem nuvens refletia a estiagem, um resto de mata ardente – talvez seja isso, imaginou – formando rugas acima dos olhos, a mão direita tampando o sol. As pessoas cruzaram a praça num ritmo acelerado, sem olhar para os lados. Um tanto acabrunhada, Eleanor ergueu o rosto para o alto, fumando o vento, ajeitando o aro dos óculos no nariz enquanto tentava prender a presilha nos cabelos rebeldes. Apanhou uma flor do canteiro, ainda ontem era uma reluzente petúnia azul – suspirou – a mesma cor que sempre imaginou ser do mar, mas agora estava cinza feito o céu. A antiga vontade de conhecer o mar havia deixado num canto, sem Carlos o mar não tinha razão; era imenso e azul, às vezes verde, trazia ondas enormes que desabavam na praia, mas nada sabia sobre flores sorrindo. Acelerou os passos, mordeu os lábios para não dizer nada, alguém haveria de perceber e também exclamar, afinal, flores não mudam de cor. No ponto de ônibus, as pessoas, como se combinado, trajavam roupas opacas, os bancos do ônibus também estavam diferentes, acinzentados, não existia mais o amarelo de ontem, a camisa do motorista, antes de um azul claro vistoso, agora transformada numa tristeza bege. Um olhar em volta, novo assombro, os ipês só deram flores marrons e algumas cinzas.  Que estranho ninguém perceber, pensou, fazendo um olhar franzido. Limpou os óculos com tecido de lã num leve passar dos dedos, ajeitou o corpo rapidamente e retirou da bolsa um livro da George Sand, costume antigo, ler no ônibus, em pé, com uma das mãos segurando o ferro de proteção e a outra equilibrando o livro aberto. O mundo em volta se apagava e o som que ouvia era do vento assoprando um vasto campo florido. Eleanor era uma jovem nascida com tempo para tudo, até mesmo para observar detalhes, as pequenas mudanças, mas não reparou que a literatura francesa estava em desuso e somente ela naquele ônibus lotado sabia porque George Sand usava calça comprida e fumava charutos em público. Um sacolejo no asfalto ruim, a volta à realidade momentânea, o olhar em volta, pessoas vestidas de cinza, como pardais sem plumas, traduzindo a certeza: ninguém por perto conhecia George Sand. Vinte e sete páginas até o ponto final e a história vagando na sua mente.

As duas árvores que ornavam a frente da empresa a receberam num abraço de frondes cinzentos. Na entrada, o quadro de Van Gogh se mostrou apagado, repleto de girassóis mortos. Segurou firme o cartão de ponto, antes amarelo e agora bege feito um pano de chão. Ao passar pelo espelho, imaginou ter se enganado com o vestido, não era daquela cor, embora o corte fosse muito parecido. O rapaz musculoso da copiadora passou por ela esparramando pelo ar um perfume azedo que embaçou de vez as lentes dos seus óculos. Os olhos negros de agora, ontem eram castanhos – pensou – e logo teve pressa, ajeitou o corpo no vestido e arrumou a presilha na cabeça, a velha tendência a fugir de situações embaraçosas. Seria uma má sina – suspirou – ter os cabelos ruivos e os olhos azuis se os cabelos rebeldes viviam brigando com a presilha e os olhos bonitos se escondiam detrás das lentes dos óculos.

O dia passou depressa. No retorno, as luzes da cidade estavam opacas e um vento repentino trazia o cheiro de chuva. De novo o livro numa das mãos, a outra mão segurando o ferro da sustentação, um breve sorriso abraçando a imagem no pensamento: George Sand enxergava o sorriso das flores nos campos encharcados enquanto Chopin tocava piano após a tempestade.

Novamente em casa, se deparou com as paredes tomadas de uma inesperada cor de avelã. Se deteve num olhar sob a paisagem escura, em volta tudo coisa gasta. Demorou mais que o habitual para encaixar a chave na fechadura, assombrada pelas flores do jardim, envoltas numa cor de pólvora. Tateou a parede até encontrar a tomada da luz, mas a escuridão permaneceu em volta até limpar os óculos, a quietude quebrada por pequenos ruídos, a gaveta se fechando levemente na cozinha, a porta da geladeira se abrindo, a fumaça do cigarro desenhando um círculo marrom e, num costumeiro arrepio, sentiu o medo kafkiano de se transformar numa barata. Ao menos as baratas podem voar e desconhecem as cores das flores – pensou em meio a um sorriso tossido.

No fim daquela noite caiu uma chuva fininha, que foi aumentando até se tornar temporal e Eleanor enxergou quase nada, apenas a janela baça segurando os pingos fortes que lhe batiam num tamborilar nervoso.

No clarão do relâmpago, lá fora, a flor com cara de macaco sorria para ela.

Conforme a chuva aumentava e envolvia a janela no seu manto de águas incessantes, desde o pé de magnólia a orquídea ganhava vida, vindo acelerada até a parede do quarto, abraçando completamente o vidro da janela.

Já não tinha a cara de macaco, era rosto de gente, primeiro Rimbaud, depois Carlos, encharcado pelos pingos da chuva, as pétalas balançando de um lado para o outro, pedindo para entrar.

Eleanor enxugou a lágrima fina no canto dos olhos, sorriu timidamente, é apenas o sorriso da orquídea, virou-se para o outro lado antes que a vista embaçasse de vez e desabou num sono alentador.

Sonhou sonhos bons, porque nos sonhos não existem lágrimas, não é preciso usar óculos embaçados, por lá as flores são tantas, não mudam de cor, nada se esfuma, embora somente a orquídea com cara de macaco conseguia sorrir para ela.

No canto do criado-mudo jaziam os óculos das lentes embaçadas, calmos e solenes, aguardando o fim do sonho e o retorno das flores cinzas no dia seguinte. 

Terça-Feira 05.02.2019 às 10:30

O novo, de novo.

André Alvez

O ano
O novo
O povo, o ovo.
A faca
A fama
O povo, o drama.
O feio
O feito
O efeito
Escorrem os dejeitos;
Num mar de lama...

Quarta-Feira, 16.01.2019 às 10:19

O conto do cavalo

André Alvez

CAVALOS.jpg

Era um campo verdejante, rodeado por árvores de um verde viçoso.
Um grupo de cavalos pastava por ali todos os dias.
O cavalo mais belo era branco, da crina longa e do relinchar tão forte que acalmava o vento.
Os outros cavalos o seguiam.
Num dia de tempestade, um raio caiu perto dos cavalos e cegou o belo corcel branco.
O fazendeiro se aproximou e apontou a espingarda, mas sua filha apertou suas mãos pouco antes, apontando para o cavalo cinza que se aproximava.
O bicho cinza roçou a anca do cavalo branco, fazendo movimentos repetitivos até que o outro acompanhasse o seu trotar.
O homem recuou e secou do rosto inocente da filha a gota de lágrima escorrendo pelo rosto sardento, já armando na cabeça  uma ideia e logo a colocou em prática: prendeu um sino no pescoço do cavalo cinza e assim, a cada passo caminhado, o cavalo branco e cego o seguia através do badalar do sino.
Passaram-se os dias e a alegria estampada no rosto da filha diante da cena - o cavalo branco seguindo o cavalo cinza a cada som do sino - fazia o velho fazendeiro completamente feliz.
Mas veio outra tempestade e um raio caiu novamente, bem perto do cavalo branco.
O bicho se levantou a custo, mas não seguiu o cavalo cinza, embora o trotar desesperado bem perto dele e o sino tocando incessantemente.
O cavalo branco e cego estava completamente surdo.
O fazendeiro se aproximou e lamentou a fatalidade: com tanto pasto, o raio caiu perto exatamente do cavalo branco.
Apontou a espingarda em direção ao cavalo branco, mas antes do tiro fatal, sua filha o apanhou pelo braço, acenando para um monte de esterco perto das patas do cavalo cinza.
O fazendeiro secou o suor da testa e fez um agrado nos cabelos da menina, absorto num pensamento de contentamento sem tamanho diante de genialidade da filha: sim, bastava encharcar a rabo do cavalo cinza de esterco que o cavalo branco o seguiria através do cheiro.
E assim foi feito.
Os dias se passaram e o fazendeiro se encarregou de todos os dias abarrotar o rabo do cavalo cinza de bosta, logo no amanhecer do dia, sempre ao lado da filha e seu indefectível sorriso.
Mas as tempestades nunca tardam.
Num dia que o tempo mudou de repente, um novo raio caiu no campo verdejante, acertou o chão, veio correndo e atingiu o único bicho que não correu - porque não viu a luz do raio, não escutou o barulho do trovão e o cheiro da bosta não foi suficiente para alertá-lo a tempo -.
O fazendeiro coçou o nariz e depois o cocoruto, triste ao verificar que o cavalo branco não mais conseguia sentir o cheiro de nada.
Cego, surdo e sem olfato.
Apontou a espingarda e olhou para a filha. A menina apenas chorava. O fazendeiro respirou fundo, recolheu os ombros por instantes e logo depois apontou novamente a espingarda para o cavalo.
De repente, num raio de luz, a menina correu afoita na direção do pai, havia concebido uma nova ideia e o sorriso cortou o seu rosto infantil.
Mas não teve tempo de chegar até o pai: num trotar cego, surdo e sem cheiro, o cavalo branco foi à sua direção num magnífico relinchar e lhe desferiu um certeiro coice.
Com as duas mãos na cabeça, o fazendeiro correu até a filha caída, desacordada.
Respirou aliviado ao perceber que apenas desmaiara.
Então levantou-se, apanhou a espingarda, apontou na direção do cavalo branco e atirou certeiro na cabeça do bicho que já devia ter morrido no primeiro raio...
A menina acordou e não se lembrava de nada, na cabeça apenas um som misturado de trovão com relincho e a imagem embaçada de algo muito grande e branco despencando entre o verde viçoso da campina.

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