Domingo, 08.12.2019

Blog André Luis Alvez

Terça-Feira 05.02.2019 às 10:30

O novo, de novo.

André Alvez

O ano
O novo
O povo, o ovo.
A faca
A fama
O povo, o drama.
O feio
O feito
O efeito
Escorrem os dejeitos;
Num mar de lama...

Quarta-Feira, 16.01.2019 às 10:19

O conto do cavalo

André Alvez

CAVALOS.jpg

Era um campo verdejante, rodeado por árvores de um verde viçoso.
Um grupo de cavalos pastava por ali todos os dias.
O cavalo mais belo era branco, da crina longa e do relinchar tão forte que acalmava o vento.
Os outros cavalos o seguiam.
Num dia de tempestade, um raio caiu perto dos cavalos e cegou o belo corcel branco.
O fazendeiro se aproximou e apontou a espingarda, mas sua filha apertou suas mãos pouco antes, apontando para o cavalo cinza que se aproximava.
O bicho cinza roçou a anca do cavalo branco, fazendo movimentos repetitivos até que o outro acompanhasse o seu trotar.
O homem recuou e secou do rosto inocente da filha a gota de lágrima escorrendo pelo rosto sardento, já armando na cabeça  uma ideia e logo a colocou em prática: prendeu um sino no pescoço do cavalo cinza e assim, a cada passo caminhado, o cavalo branco e cego o seguia através do badalar do sino.
Passaram-se os dias e a alegria estampada no rosto da filha diante da cena - o cavalo branco seguindo o cavalo cinza a cada som do sino - fazia o velho fazendeiro completamente feliz.
Mas veio outra tempestade e um raio caiu novamente, bem perto do cavalo branco.
O bicho se levantou a custo, mas não seguiu o cavalo cinza, embora o trotar desesperado bem perto dele e o sino tocando incessantemente.
O cavalo branco e cego estava completamente surdo.
O fazendeiro se aproximou e lamentou a fatalidade: com tanto pasto, o raio caiu perto exatamente do cavalo branco.
Apontou a espingarda em direção ao cavalo branco, mas antes do tiro fatal, sua filha o apanhou pelo braço, acenando para um monte de esterco perto das patas do cavalo cinza.
O fazendeiro secou o suor da testa e fez um agrado nos cabelos da menina, absorto num pensamento de contentamento sem tamanho diante de genialidade da filha: sim, bastava encharcar a rabo do cavalo cinza de esterco que o cavalo branco o seguiria através do cheiro.
E assim foi feito.
Os dias se passaram e o fazendeiro se encarregou de todos os dias abarrotar o rabo do cavalo cinza de bosta, logo no amanhecer do dia, sempre ao lado da filha e seu indefectível sorriso.
Mas as tempestades nunca tardam.
Num dia que o tempo mudou de repente, um novo raio caiu no campo verdejante, acertou o chão, veio correndo e atingiu o único bicho que não correu - porque não viu a luz do raio, não escutou o barulho do trovão e o cheiro da bosta não foi suficiente para alertá-lo a tempo -.
O fazendeiro coçou o nariz e depois o cocoruto, triste ao verificar que o cavalo branco não mais conseguia sentir o cheiro de nada.
Cego, surdo e sem olfato.
Apontou a espingarda e olhou para a filha. A menina apenas chorava. O fazendeiro respirou fundo, recolheu os ombros por instantes e logo depois apontou novamente a espingarda para o cavalo.
De repente, num raio de luz, a menina correu afoita na direção do pai, havia concebido uma nova ideia e o sorriso cortou o seu rosto infantil.
Mas não teve tempo de chegar até o pai: num trotar cego, surdo e sem cheiro, o cavalo branco foi à sua direção num magnífico relinchar e lhe desferiu um certeiro coice.
Com as duas mãos na cabeça, o fazendeiro correu até a filha caída, desacordada.
Respirou aliviado ao perceber que apenas desmaiara.
Então levantou-se, apanhou a espingarda, apontou na direção do cavalo branco e atirou certeiro na cabeça do bicho que já devia ter morrido no primeiro raio...
A menina acordou e não se lembrava de nada, na cabeça apenas um som misturado de trovão com relincho e a imagem embaçada de algo muito grande e branco despencando entre o verde viçoso da campina.

Terça-Feira 20.11.2018 às 10:21

Um conto de bichos

André Alvez

De repente a floresta ardeu em chamas.
Os bichos, aturdidos, não sabiam o que fazer.
Em meio à áspera nuvem de fumaça, surgiu um belo passarinho carregando um pouco de água no bico. Corajosamente sobrevoou o foco do incêndio e lá atirou as gotas de água que conseguiu ajuntar.
O macaco sorriu, apontou para o passarinho: “sai daí bicho estúpido, você jamais conseguirá apagar o incêndio”.
O passarinho, que sabia falar a língua dos macacos, respondeu: “sei que não apagarei o incêndio, mas estou fazendo a minha parte”.
Os outros bichos se entreolharam, surpresos.
Deu-se um ameaçador silêncio, nem mesmo as hienas foram capazes de sorrir.
O rei Leão resolveu agir, fazer valer sua liderança, ordenou que o elefante enchesse a tromba de água e ajudasse o corajoso passarinho.
Um tanto contrariado, resmungando que outros poderiam ajudar de alguma forma, o elefante caminhou até o rio e encheu o quanto pode de água a tromba.
O leão pensou dar ordens ao jacaré, um pensamento corrido, talvez com uma boca tão grande, poderia enchê-la de água e ajudar o elefante e o corajoso passarinho.
Mas o jacaré fechou os olhos e mergulhou na água profunda. Ali estava livre do perigo das chamas e disso sabia muito bem.
O fogo aumentou, o passarinho continuou fazendo sua parte enquanto o elefante desistiu na terceira tentativa. Quando os bichos esperavam pelo pior, quando o calor das chamas já chamuscava todos os pelos, detrás do sol partiu uma imensa nuvem negra de chuva.
E o temporal desabou em poucos minutos, apagando o incêndio.
Depois de horas, o incêndio já não existia, apenas o cheiro de queimado insistia a pairar pelo ar.
Assim que tudo se acalmou, entre lágrimas incessantes, a raposa trouxe entre suas patas o corpo ainda fumegante do passarinho.
O leão se aproximou, fez um gesto de carinho na cabeça do passarinho e logo depois o devorou.
“Nunca confiei nas raposas."
Disse entre dois arrotos com gosto de carne explodindo. Depois estalou os dedos:
- Não existe nada mais gostoso do que passarinho assado”.
E a vida voltou ao normal na floresta.

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