Quarta-Feira,, 05.08.2020

Blog André Luis Alvez

Sábado 01.08.2020 às 12:34

Vou riscar as tatuagens e guardar o meu amor na masmorra.

André Alvez

O amor é um sentimento que mantenho preso numa masmorra. Quando solto é fogo que queima, o declínio da razão. Sou cega quando me apaixono, me transformo numa maluca, incapaz de raciocinar corretamente.

O que se passou pela minha cabeça quando resolvi tatuar o nome dele no meu braço? Não contente, acrescentei o símbolo do Flamengo, time que ele ama, logo eu, que nunca gostei de futebol. Gabriel não merecia nem um pingo da dor que senti. Em algum momento da nossa relação a luz se tornou intensa, veio a cegueira, o transe completo e o pássaro acabou liberto da gaiola.

Quando nos conhecemos, Gabriel fixou o rosto em mim na sala de aula de um curso de Excel, armado naquele jeito estranho de olhar, blasé e vagaroso, o sorriso que não começava nos lábios e sim nas rugas dos olhos. Toda mulher enxerga sem encarar: o homem era pequeno, mas confiante. Sou uma mulher grande em tudo, quase dois metros de altura, do nome difícil, Stephania, mesmo nome da minha bisavó, uma polaca de sangue forte, mulher benzedeira e parideira, mãe de doze filhos.

Os opostos se atraem. Eu queria apenas aprender a mexer com planilhas, a empresa estava pagando, precisava prestar atenção. O Gabriel não passava de um vagabundo que o pai pagou o curso para se livrar da presença dele dentro do quarto o dia todo. 

No intervalo, ele sentou-se na outra ponta da mureta e não desistiu enquanto não olhei para ele. Sorriu aberto, aquele riso feito cascata, começando nas rugas dos olhos e só depois atingindo a boca.

Um homem tão pequeno, o que poderia querer com uma mulher enorme como eu? Ele insistiu, o rosto fixo em mim. Retornei o sorriso e abaixei a cabeça. Depois me puni com um soquinho na coxa, detesto quando abaixo a cabeça.

No outro dia já se sentou ao meu lado, ignorando a aula, o professor, as fórmulas e os números nas planilhas.

- Oi, eu sou o Gabriel. – Disse, sem tremer a voz, o ar sonso-blasé.

- Oi – não revelei o meu nome, mas senti o rosto ferver e ele percebeu – 

- O que vamos fazer quando sairmos daqui Stephania?

Como sou burra, é claro que ele sabia o meu nome, ouviu diversas vezes durante a chamada. Foi então que o monstro da sedução me abraçou. Eu não tinha nada para fazer, nenhuma audiência, nenhum cliente para atender, nada.

- Não tenho nada para fazer. Você tem?

Voz baixa, rouca, o pensamento imaginando um rio buscando a cachoeira.

Mostrou-me o molho de chaves.

- Estou de moto. Um passeio?

Dei outro soquinho na coxa, a perna ameaçou tremer. Pensei dizer não, mas eu realmente não tinha nada para fazer e minha única dúvida era se aquela criatura tão pequena sabia pilotar uma moto.

- Tudo bem, vamos.

E não olhei mais para ele. A aula tinha ainda duas horas de duração, mas demorou eternamente.

Na saída, rosto lívido, o procurei em meio à multidão, até dar com ele no estacionamento da escola, sentado na motocicleta e olhando para mim, o sorriso já instalado nas rugas dos olhos, pronto para descer até a boca. 

Pelo menos a moto não é pequena, imaginei e sorri.

Montei num passar de perna único, como se fosse acostumada a andar de moto, ainda que a última vez tivesse acontecido na adolescência.

- Você se parece com a Marisa.

- Marisa?

- Marisa Horta.

- Ah sim... (Marisa Orth, ela de novo, sempre fazem essa comparação odiosa).

- Aonde vamos?

- Dar um rolê. Coloque o capacete e segura firme na minha cintura.

Juntei as mãos e ele acelerou. Estava um pouco gordo, deu para sentir, mas quando meus braços subiram até os seus ombros, a grande surpresa, ele tinha músculos. Talvez frequentasse alguma academia.

Gabriel rodou o centro da cidade e depois pegou a saída para São Paulo. O tempo todo falava alguma coisa que eu não entendia por causa do vento, e a tudo respondi sim. Quando ele virou e estacionou na garagem de um motel a minha reação foi uma mistura de surpresa, espanto e raiva. 

- Cara, a gente mal se conhece e...

Ele armou no rosto uma expressão de desapontamento, as mãos agitadas tentando ajeitar os cabelos esparramados pelo capacete:

- Você disse sim diversas vezes no caminho.

- Eu não ouvi nada do que você perguntou. O sim foi uma espécie de livramento.

- Até o convite para o motel você não ouviu?

- Não ouvi nada! Vento, capacete, cabelos nos ouvidos, surdez completa, entende? Você foi direto ao ponto, não falou nada de si, já veio me trazendo para um motel, você é maluco...

- Falei que sou solteiro e gosto de você desde os tempos do cursinho.

- Cursinho? Nos anos noventa? Cara, eu tinha dezoito anos!

- Não mudou quase nada...

Fiquei sem graça, um leve rubor tomou conta da minha face, não sabia o que dizer.

- Você nem se lembrou de mim. – Disse e suspirou fundo.

- Olha, não me leve a mal, mas eu nunca....

- Então suba e vamos embora. — Fez ele, um tanto enfurecido: —

Não foi um convite movido pelo sentimento de desculpa ou arrependimento, mas sim uma espécie de ordem, dura, direta e desde que saí da casa dos meus pais, não obedeço às ordens de ninguém. Além do mais, já estávamos mesmo ali e a última vez que fiz amor a Dilma ainda era a presidenta.

E porque os homens podem fazer sexo no primeiro encontro e as mulheres não? O gavião e a galinha? Comigo não. Afinal, ele não era totalmente desconhecido, já tínhamos convivido duas semanas no curso de Excel e fizemos cursinho nos anos noventa.

Apanhei o capacete das mãos dele:

- Tudo bem, vamos entrar.

Ele tremeu, eu dei soquinhos na coxa, e lá fomos nós. Uma cama imensa, o lençol caprichosamente esticado, a luz mortiça da tarde se acabando, o resto do mundo num silêncio cúmplice lá fora e o sorriso do Gabriel, aquele que começa nas rugas dos olhos e vai descendo até os cantos da boca, bem diante de mim.

Nada mais posso contar, minha intimidade está instalada no escuro de uma masmorra, que fica após a ponte acima do lago, no qual passeiam, de um lado para o outro, diversos crocodilos. Nem às sombras confesso os meus gemidos. Mas posso dizer que foi bom, quem diria, aquele homem pequeno...pequeno em tudo...Ah, embaixo da ponte que protege a masmorra há uma corrente de água cristalina em busca da cachoeira...

No outro dia ele já me esperava em frente à escola, ornado de um brilho de triunfo difícil de explicar. Me apanhou pelas mãos e tentou me beijar. Dei-lhe o rosto, neguei o que ofertei com fartura menos de vinte e quatro horas antes, entre quatro paredes. Ele insistiu e cedi sem muito esforço.

Eu não queria namorar ninguém, mas quem sabe, depois de ontem, os crocodilos que protegem a masmorra morreram afogados, colocando fim às noites solitárias...

O que começou num encontro casual, se tornou sério, engatamos firme o namoro e no começo foi tudo tão bom... Gabriel me apresentou à sua família, fiquei amiga de todo mundo, na segunda semana a mãe dele já me chamava de filha.

Nunca se acostumaram com o meu nome, para eles eu era uma mulher enorme do nome confuso. E assim, de Stephania, me transformei na Estepe. No começo achei lindo, divertido, fofo: “Estepe, cunhada linda, mulherão da porra essa Estepe, venha Estepe, o jantar está pronto, Estepe, amada Estepe”.

Durou até o domingo perto do natal quando surgiu por lá, “só de  passagem”, a ex do Gabriel, uma moça magra, dos olhos enormes, nariz adunco, feia de rosto, mas das nádegas salientes e o flagrei olhando para ela, armado naquele ar blasé-vagaroso, as rugas dos olhos se contorcendo, o riso pronto a se armar.

Estou sempre duas doses acima na desconfiança. Num instante, no meu íntimo pensamento, ser chamada de Estepe se transformou num deboche. O ciúme a tudo desgasta, até mesmo o amor. Eu sempre fui muito desconfiada. O castigo dos céticos é duvidar de tudo, inclusive das próprias dúvidas. Fui levando o nosso caso por mais um tempo, mas o alerta estava definitivamente ligado: nas festas, nos bares, nas reuniões da família, sempre tinha outra mulher e lá estava aquele olhar sonso-blasé, o mesmo risinho do Gabriel, começando nas rugas dos olhos e descendo até os cantos da boca...

Como não percebi antes? Gabriel sempre jurou fidelidade, mas que mulher fraca é essa que acredita em juras de homem, perguntaria minha finada avó, a velha polaca. Eu que não sou, respondo para o vento.

E então a tatuagem deixou de fazer sentido, se tornou a raiz dos meus arrependimentos, uma prova desenhada de que fui enganada.

Queria voltar no tempo, quando a moto virou a primeira esquina, daria um toque nos ombros do Gabriel pedindo para voltar, sem lhe dar chances para retrucar, mantendo o rosto sério enquanto ajeitava os meus cabelos assoprados pelo vento.

- Como vai ser? – Perguntou o tatuador.

- Depois de Gabriel, escreva Garcia Marquez. Em cima do escudo do Flamengo, desenhe um coração bem grande e pinte-o completamente de preto. E nem senti dor enquanto o tatuador fez o seu trabalho.

O amor acaba. O meu acabou na última tragada de cigarro, o filtro ainda queimado nos dedos trêmulos, a bagana jogada na encruzilhada do lago frio lá fora, aquele mesmo lago que descarrega num rio em busca da cachoeira, a correnteza das águas borbulhantes, mas que nunca sorri.

Acabou. Não volta mais.

Sozinha novamente – suspirei – e depois mergulhei o meu corpo nas noites tormentosas, enrolada num cobertor, aprisionada no canto da masmorra, os pulsos envoltos em algemas de aço entre duas rochas, enquanto a garganta ressecada impede o soluço, mas não as lágrimas.

Elas rolam, rolam, rolam no meu rosto febril...

Segunda-Feira 20.07.2020 às 07:38

Ismália, a lagartixa e o vendedor de biju.

André Alvez

lagartixa.jpg

Acordei com a Ismália de Alphonsus Guimaraens caminhando no meu pensamento. A virgem quase morta, semienlouquecida, sem saber se queria a lua do céu ou a lua do mar, os pés fincados nos últimos torrões de terra de um despenhadeiro, observando lá embaixo a luz opaca de um vilarejo distante, restos de mundo apagado no qual um rapaz caminha apressado, empunhando sua jaqueta amarela contra o vento.

Alphonsus Guimaraens preenche uma lacuna inexplicável no meu gosto mortiço pela poesia. São ecos de dor rimando assombros e exclamações. Desde quando eu era jovem, Ismália aparece nos meus sonhos e nunca consegui espantar para longe a dor do poeta.

Em mim, Ismália vive e se mistura a outros personagens, como agora, com o Jonas da série Dark, navegando em perturbadoras idas e vindas ao futuro e ao passado.

Dark é tão fascinante que me fez pregar a atenção na televisão e maratonar durante três dias seguidos os episódios da terceira e última temporada, resultando nuns pensamentos estranhos que me apanharam na forma de inquietantes interrogações:  e se tudo for mesmo efeito de uma Matrix? E se ocorrer alguma falha na Matrix, conforme Jonas alertou em diversos episódios da série?

Penso nisso nessa manhã fria de julho, os olhos passeando sobre uma lagartixa grudada na parede, enquanto minha mulher coa o café.

Sou um solipsista convicto quando estou bebendo café. Nesse instante divino, que o paladar e o olfato se chocam, nem sou eu, sou Bob Dylan e Cortázar desvendando o homem que vendia biju e passava em frente de casa todos os dias, exatamente às quatro da tarde, há muito tempo atrás. Eu tinha cinco anos e jamais me esqueci daquele rosto: os olhos azuis enormes, a boca de dentes pontiagudos e separados, cabelos ralos dos fios longos e da pele cor de garapa, bem parecido ao Golum de Senhor dos anéis.

A lagartixa pisca e Ismália sussurra no meu ouvido: “E como um anjo pendeu, as asas para voar...Queria a lua do céu, queria a lua do mar...” faço um pedido calado, num morder de lábios: dê dois passos para trás Ismália, fuja enquanto é tempo, se afaste do despenhadeiro, não encare o abismo, suas asas são apenas estrofes utópicas de um poeta atormentado.

Alphonsus, pobre Alphonsus...

Talvez o retrato real do vendedor de biju fosse mais ameno –  Golum é muito apavorante – era na verdade um senhorzinho cansado da lida, dos cabelos finos, suados e espigados, escapando pelo chapéu de palha, até se esparramar na testa, a pele castigada pelo sol, fazendo arder os olhos grandes de tanto sofrer, as mãos ardentes de empurrar o carrinho do biju, os pés dos sapatos furados buscando a paz de uma sombra na árvore. Talvez... Mas o desenho na minha mente é o de Golum e não consigo consertar.  

Se existe a Matrix, o antigo vendedor de biju é o sujeito que a mantém ativa.

Um calafrio percorre meu corpo quando penso nisso. E se ele se cansar de vez e deletar tudo?

Anos depois, tive um professor de matemática bem parecido fisicamente com o vendedor de bijus. Terças e quintas – pontualmente às sete horas da noite – os dias das aulas de matemática, palco de um dos meus tantos tormentos.

O barulho de giz riscando a lousa de números e sinais, a voz cansada, o olhar repentino para trás, indo de encontro aos meus olhos escondidos de medo no canto esquerdo da sala de aula.

- Entendeu? – perguntava o professor, assim mesmo, no singular, olhando diretamente para mim.

Falha na Matrix...

Eu olhava para ele que me devolvia o olhar, parecendo ler meus pensamentos.

Aprendi o teorema de Bhaskara movido pelo medo.   

O tempo passou e o vendedor de biju, depois professor de matemática, se transformou no motorista do ônibus 157 que fazia a linha centro – Cophavila II e passava pontualmente as cinco e meia da tarde, descendo a Rua Maracaju, completamente lotado, virando a Calógeras, depois a Afonso Pena, atravessando os trilhos, esparramando os corpos, mas pelo menos dessa vez o seu olhar era reto, as mãos no volante, às vezes cambiando a marcha num esforço de estalar as veias.

- Quero mais café – digo e já apanho o bule para perto de mim.

A Graziela me olha atravessado:

- Já estamos atrasados.

Desfaço do aviso num riso de canto de boca: já podemos nos permitir alguns atrasos.

- Você já notou como são enigmáticas as lagartixas?

- Lagartixas? O que tem elas?

- Estava pensando, e se tudo for uma falha na Matrix?

- Ah pronto! Eu falei para você não assistir Dark...

Sorrimos, mas continuei pensando: e se a lagartixa for parte real do universo e nós apenas um quadro na parede que ela observa enquanto espera, pacientemente, surgir um bicho apetitoso para lhe saciar a fome?

Graziela balança a cabeça e come a torrada. O barulho me irrita e tento conversar em pensamentos com a lagartixa: olá, eu sou humano, consegue entender a minha fala? Abane o rabo se sim.

Por incrível que pareça, o bicho fez um leve balançar de rabo.

- Você viu isso?

- Não vi nada.

- A lagartixa! Ela entende o que eu penso.

- Pronto, lá vem você...

- É sério, ela mexeu o rabo.

- Deixa o bicho em paz e por favor, não comece com aquela estória do vendedor de biju parecido com o Golum.

- Vou tentar de novo. Observe: lagartixa, existe a Matrix? Se sim, mexa o rabo.

Graziela mantém o olhar preso na lagartixa por dez segundos.

Nada. Completamente imóvel. Ela ri e balança a cabeça negativamente.

Fiquei quase dois minutos esperando e nada. Maldita lagartixa!

- Não esquece a máscara e vamos indo.

Um último gole de café e a pressa acelera os nossos passos.

O barulho da garagem subindo é a trilha sonora ideal do mundo real se abrindo em cortinas.

E o corpo de Ismália perdeu as asas que Deus lhe deu, subiu ao céu e depois caiu no mar e eu...eu conduzo o carro terra abaixo, sem asas para voar. Máscaras, óculos embaçados. Esse vírus maldito anda levando embora as pessoas erradas: mal me recuperei do Aldir Blanc, agora foi o Antônio Bivar. 

Essa pandemia só pode ser uma falha da Matrix.

Sigo dirigindo enquanto o pensamento borbulha: Ismália sou eu, diria Alphonsus Guimarães, tal e qual Flaubert bebendo veneno na intenção de salvar Emma Bovary.

Peguei cinco sinais abertos e fiquei aborrecido, desejava um sinal fechado para digitar rapidamente no celular um pensamento que me ocorreu de repente, um conto narrado em primeira pessoa, eu transformado numa lagartixa, passeando pela parede à espera de uma mosca descuidada:  que bichos estranhos são aqueles bebendo café e comendo torradas?

Deus é o tempo, definiu Jonas nos momentos finais de Dark. O tempo, logo ele, um túnel sem fim...

Venha Ismália, pegue nas minhas mãos, não encare o abismo, siga o alerta de Friedrich, o bigodudo:  “Se ficar muito tempo olhando para o abismo, o abismo também olhará para você”.

Enfim, chegamos ao nosso destino.

- Vamos entrar logo, antes que apareça o senhorzinho vendedor de biju – diz a Graziela em meio a um sorriso.

Na mesa do escritório, finalmente os pensamentos vão embora, levados pelo sossego de um gato vadio que aparece de vez em quando e sequer lhe demos um nome.

Eu o desprezo, mas ele gosta de mim, quer me chamar de seu dono.

Se for fêmea será Ismália, se macho, Jonas.

Depois levanto-lhe o rabo e verifico – penso e sorrio – enquanto o bicho rosna, deitado nos meus pés.

Sábado 04.07.2020 às 12:45

A batalha entre o hipocampo e o canal, ao som de Maiara e Maraisa

André Alvez

Recentemente, numa reportagem, fiquei sabendo que guardamos a nossa memória na parte frontal do cérebro, uma região chamada hipocampo.

Gancho feito, entro no assunto dessa crônica.


Quem é capaz de fazer tratamento odontológico em plena pandemia?


No início do ano, resolvi fazer tratamento dentário em um desses consultórios especializados. Cada consulta, um dentista diferente. O lugar é extremamente limpo e organizado, mas sinto como se estivesse entrando no consultório do doutor Frankenstein.


A sala, além de toda a parafernália odontológica, possuía, de frente à cadeira do dentista, uma Tevê.


Achei estranho, mas não disse nada.


O dentista se mostra uma espécie de Deus, todo de branco, máscara cobrindo parte do rosto, cabelos grisalhos, um Richard Gere dos anos noventa.
A auxiliar sorriu ao me apontar a cadeira. Devolvi o sorriso e tentei me ajeitar.


- Fique tranqüilo, não vai doer nada – disse o dentista – abra a boca, por gentileza.
Sempre achei que uma dose de uísque antes de sentar naquela cadeira devia ser obrigatória.
- Vamos fazer o canal do molar inferior direito, ok?
- Sim, sem problemas. - Digo, tentando disfarçar o medo. O dente nem estava doendo, qual será o tal molar inferior direito? Precisa mesmo mexer em quem está quieto?
E no instante seguinte, entre o dente a ser tratado, doutor Gere ajeitou um punhado de algodão de cada lado.


E aí que entra o hipocampo e seu arsenal de recordações.


Faço uso dele para me desligar do sofrimento. Pensar em algo bom enquanto o mundo acaba.  Inicio um exercício, permito o silêncio me envolver, fecho os olhos e escuto uma música orquestrada. Música orquestrada me acalma desde menino e o pensamento se mistura a uma porção de questionamentos: o oboé é difícil de aprender? Algum violino se encaixa nos meus ombros caídos? Como é o nome daquela orquestra que desapareceu durante um voo em meio a uma tempestade?


O dentista se move ligeiro na cadeira. Uma sede danada me invade.


- Ummm, canal profundo. Vamos demorar um pouco para terminar.


Canal demorado... Significa que o cirurgião dentista irá extrair um nervo de dentro do meu dente e vai demorar a fazê-lo. Para isso ele vai usar anestesia, um tipo de injeção dentro da boca, dói bastante, embora o dentista vá dizer que será apenas uma “agulhadazinha” de nada.


Tento buscar a paz das orquestras. Glenn Miller, o nome do maestro desaparecido no desastre aéreo, surge na minha mente. Aviões caindo e tratamento de canal dentário, não é uma boa mistura. Reviro os olhos, jogo fora a tragédia do maestro.


- Vou anestesiar e você sentirá uma agulhadazinha de nada – ele diz, como se tivesse escutado o meu pensamento –.


A tal agulhadazinha dói uma barbaridade, mas não posso falar nada, a boca aberta, repleta de algodão, se transformando aos poucos num daqueles círculos do inferno de Dante.


- A anistia já fez efeito. Vamos começar... – diz o doutor bonitão e eu me lembro que Lúcifer também é bonito –.


Ele dá as costas para mim na cadeira giratória, começa a apanhar um monte de ferramentas, clesh, sclhesh, plesht.

Num momento de total desatino, penso pegar nas mãos da moça auxiliar do bonitão, um gesto de pedido de ajuda, mas ela não nota o meu desespero, permanece impávida, o rosto sereno atrás de uma máscara bege.


Ele gira a cadeira num supetão e fica de frente para mim.


- Fica calmo, não vai doer nada – quando alguém diz isso, geralmente está mentindo –
E como não existe nada ruim que não possa ficar péssimo, a ajudante do dentista resolve ligar a tevê e nela surgem sons e imagens de um show ao vivo gravado em DVD.


Assombrado, percebo que é o de uma dupla sertaneja, Maiara e Marinara, algo assim.
Eu odeio música sertaneja. Ao vivo, então...


Pronto, o inferno está completo. A boca anestesiada parece uma coxinha de frango frito.


O dentista pega algo parecido a um anzol. Pernas tremem e ele nada percebe. Depois retira algo que imagino ser a tampa do dente. O tremor nas pernas aumenta, a voz da dupla sertaneja – eu realmente detesto música sertaneja – se funde ao barulho do motorzinho, ziiiiim, zim, ziiiiiiiim,  o punhado de algodão em cada lado da gengiva se transforma na frase de Brecht: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.


Um pedido de socorro na mente e o hipocampo, velho camarada, consegue novamente me trazer imagens das boas lembranças:
Eu tinha quinze anos quando isso aconteceu. Ah, quinze anos, um rapaz magro, dos olhos brilhantes, apaixonado pela colega japonesa da escola, pela filha da vizinha e também pela moça mais velha, garçonete do bar do português.
Eu amava as três ao mesmo tempo, sem lhes dizer palavras, amava com os olhos, com o sopro do silêncio fazendo bater o coração juvenil.
Como isso foi possível? Talvez o hipocampo tenha escondido algumas verdades que não desejo recordar.


Longe demais, hipocampo! Vamos aos meus vinte e poucos anos, barzinho com os amigos, muita cerveja e sem hora para ir embora.


Zim, zim, ziiiiim, romck, romck, o barulho na minha boca espanta os bons pensamentos, confundem o hipocampo, aciona lembranças ruins, os cabelos começaram a cair aos dezoito, precisamos reagir hipocampo! E a imagem boa logo vem, final de semana na casa de amigos, no som da vitrola Tetê e o lírio selvagem, Belchior, Djavan, a ideia repentina do amigo Ronaldo, inspirado por uma imensa lua cheia:  fazer serenata para a namora Amanda.  E lá fomos nós, o carinha de óculos, que esqueci o nome, dedilhando o violão, ao lado dele nossa amiga cantora, aquela sim, cantava tão bem, tinha a voz da Zizi Possi, onde será que ela foi morar? Minha função era carregar o abacaxi recheado de pinga e... zim ziiiiimmmm, ronck, ronck, estrondos na boca.

Foco no luar, hipocampo, imploro e ele me obedece, fazendo surgir a cena mais bela: a namorada do amigo abre a janela e chora de emoção, mas o pai fica zangado, onde já se viu, incomodar a vizinhança numa hora dessas? Dona Maria, a madrasta da moça, passa o pano, se acalme Osvaldo, eles são jovens, você já fez serenata para mim? Não, claro que não, mas não ligo, talvez um dia, mas quero com harpa e sanfona, e todos rimos de um tanto, nem percebi o abacaxi escapando das minhas mãos.... zum, zim, romck, cuidado com a língua! Hipocampo atrapalhado novamente, me envia antigas notícias ruins, como vou fazer para passar em matemática, física e química? 

Lembranças boas, por favor, hipocampo! 

O fim de semana no Cachoeirão, trilhos nos levando rumo ao Pantanal, os amigos no restaurante do trem, cerveja gelada, bife a cavalo, a moça ligeiramente estrábica está olhando para mim ou é impressão?

Mais um gole de cerveja, um risinho basta por enquanto, depois crio coragem para perguntar, será que ela vai descer na estação Cachoeirão?


Na tevê, o mundo despenca: “Sabe o que você tem? Tem sorte que cê beija bem” cantam Maiara e a irmã que nunca lembro o nome. De repente, o dentista finalmente resolve retirar o maldito punhado de algodão e esguichar água na minha boca.
- Cospe – ele diz.
Alívio, olhos lacrimejando, vontade louca de me levantar da maldita cadeira. Mas ainda não terminou, ele torna e encaixar algodão entre o dente:
- Coloque a língua para o outro lado – ordena. Obedeço e respiro fundo. Na tela da tevê, as irmãs sacolejam o corpo, é impressionante como elas são queridas pelo público.
 “O culpado de tudo é os Hômeeeeeee, nois mué temos razãoooooo!
Ò céus, lá vem o motorzinho...Socorro hipocampo!


Fecho os olhos novamente e vou lá para o dia do nosso casamento.
A Graziela estava linda, e eu...provavelmente também.
Padre Antônio faz um sermão belíssimo, que dure para sempre, disse ao final, num belo sorriso. Sinto vontade de voltar lá e lhe contar dos quase trinta anos passados, os detalhes das muitas lutas e conquistas, estamos juntos, temos dois filhos, um neto e eu virei escritor, mas será que o padre Antônio se lembra de nós?

A auxiliar do dentista traz um objeto pelas mãos e o entrega ao doutor.
- Esse não serve, põe broca maior.
Broca maior? Medo, angústia. Maiara e Marinalva dançam e cantam:
“Se ele te beija gostoso, dá um amasso cabuloso, quem ensinou fui eu, quem ensinou fui eeeeeu”. 

Chico César, eu concordo contigo, odeio rodeio!

Lembranças boas, hipocampo, vamos lá, você consegue, manda alguma recordação feliz, senão vou entortar a língua e jogar fora o maldito algodão.
O querido hipocampo se abre, me envia imagens de bichos, direto da janela do trem, passando Miranda, na curva da mata, um tamanduá abraçado a um monte de cupim.
Até os caramujos do Manoel me acenam, eles sabem do meu sofrimento, ziiiiim, zict, zonk, stronk. Enfim, Corumbá. Que cidade linda, meu Deus! O hipocampo se rebela, tenta me questionar: porque está falando em Deus se você é ateu? É o medo do dentista, o algodão, a língua que não quer parar no céu da boca, a dança e a voz da Maiara e da irmã?
Eu não sou ateu, sou deísta!
Ele não liga, prossegue me provocando: quem é Maiara, quem é Marinara? Ou será Marialva? Consegue me irritar com tantas perguntas, resolvo retrucar: você sabia que hipocampo significa cavalo do diabo?
Maiara e a irmã entram de sola na discussão:
“Cê ta roubando o tempo, cê tá ocupando o espaço dela, os planos do casório, do cachorro, do neném com a cara dela, libera ela, libera ela, libera elaaaaaa”.

O dentista enfim para de cutucar o meu dente e ergue a cadeira.
- Pode cuspir.
Fim do suplício.
Durou quase quarenta minutos a tortura.
Não volto mais, dane-se se já paguei o tratamento.
A auxiliar do dentista sorri. Ele me encara.
- Deu um trabalhinho, viu? Estava feia a coisa. Vou marcar o retorno para semana que vem.
Paro e penso: tenho que aguentar. Falta só mais um canal. Sou forte e tenho ao meu lado as lembranças guardadas no hipocampo.
- Tudo bem, semana que vem. Mas posso fazer uma sugestão, doutor?
- Claro que sim.
- O senhor não teria o DVD do Ira ou alguma coisa dos Titãs?
Ele me encara de olhos bem abertos, espantado:
- Você não gosta da Maiara e Maraisa?
Enfim, descubro o nome correto da dupla.
- Nem um pouco.
Ele sorri, um tanto sem jeito.
- Era só falar, temos vários DVDs.  Tem muita gente que gosta delas e pensei que você fosse mais um fã da dupla.
- Não gosto, não. Se não fosse o meu hipocampo, teria desistido.
- Seu hipo o quê?
- Nada não, doutor, nada não.  Até semana que vem!
Abri a porta da saída e senti o alívio dos desamarrados, um daqueles respiros profundos, a brisa gostosa batendo no rosto, o sentimento do dever cumprido.

Sou até capaz de ouvir novamente Maiara e Maraisa.


Desligo o hipocampo. Semana que vem tem mais.

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