Segunda-Feira, 23.11.2020

Blog André Luis Alvez

Terça-Feira 13.10.2020 às 01:33

A flor das cobras

André Alvez

a flor das cobras.jpg

Eu queria escrever uma crônica (quem sabe um conto) sobre pessoas solitárias sobrevivendo às multidões.
Ou sobre uma moça com nome de flor, ingênua, bela, do sorriso meigo, mas que desconhece a própria dor, ignora o poder dos seus espinhos.
A flor das cobras, vive nelas.
Escreveria com prazer algo bom sobre a teimosia, ou um texto terrível lamentando as minhas desistências (foram muitas).
Num repente atrevido, pousaria os olhos sobre a cascata de lágrimas derramadas enquanto ouvia os Beatles na adolescência (tempo ruim) e daquela extinta e profunda tristeza, arrancaria a rima da canção que nunca fiz.
Eu queria escrever algo impactante, o som retumbante da carruagem de fogo ganhando asas, subindo ao céu, envolta no barulho das rodas girando sem apoio, até alcançar as nuvens e nelas formando raios mortais.  Queria escrever sobre a surpresa nos meus olhos cá abaixo imaginando, após a lua, até onde prosseguirá a carruagem? Se perderá na escuridão do universo? No céu só existe escuridão.
A carruagem atiça os meus dedos no teclado,  me convida a um passeio, e eu respondo: quem sabe num outro momento, agora tenho na mente a frase apanhada na internet – a flor das cobras –  que me despertou, me fez escutar novamente o badalar dos sinos no início da canção do John Lennon. Por quem os sinos dobram? Por mim, Ernest, por mim. Aquela música do Lennon era o abraço do amigo invisível, causava uma instantânea tristeza, mas logo se transformava em euforia, porque Lennon gritava e eu, mesmo quieto, por dentro, gritava também: mama don't go, daddy come home!
A flor das cobras era a única a ouvir o meu lamento. Depois cruzava o quintal em zigue-zague, as pétalas se arrastando, até se perder nos cantos da mata.
A máscara sufoca o meu respirar, embaça os óculos, o pátio do condomínio é um desfile de mascarados. Vistos de longe, são todos crianças. Somos todos crianças: quando finalmente crescemos? Já passei dos cinquenta e não sei ainda, se sei, desconheço as letras e os caminhos. Um balançar de cabeça, a busca da realidade que sempre me escapa. Acontece muitas vezes, me confundo entre o mundo real e o imaginário, consigo correr, os cabelos de antes retornam, desarrumados pelo vento forte, cenas repetidas na retina embaçada, como da vez que subi até o topo de uma árvore, me arrastando entre os troncos, ignorando os perigos do balançar dos galhos, até encontrar um ninho de passarinhos vazio, mas ao descer, o rosto triunfante, disse a todos que os ovos eram azuis.
- Ovos não dão em árvore, você subiu para apanhar uma manga!
A voz do menino mais velho, um infante autoritário do qual eu sentia medo. Como explicar a sujeito tão chulo a beleza da existência dos ninhos dos passarinhos?
- Volte lá e pegue a manga! – Apontou os dedos na minha testa e saí correndo, sem lhe dar chances para me alcançar. Ah, eu corria como um lobo cinzento naqueles tempos, e era amigo das pedras, sabia me esconder entre elas e de lá ficar espreitando tudo em volta. O menino mais velho cuspiu palavrões, ao lado dele os outros meninos o encaravam, surpresos, exigindo atitudes do líder. Então ele mesmo subiu na árvore, apanhou diversas mangas, mas ao descer escorregou em algo e quebrou a perna. Nunca mais o vi, mas ainda escuto o barulho do tombo e o seu grito desesperado.
A flor das cobras reside entre os galhos das árvores.
Eu não queria mais escrever sobre o passado, mas guardo na memória o ladrar dos cachorros, aqueles que comiam junto da gente os restos, as sobras, o miolo do pão molhado no leite, os ossos, a carne envenenada da flor das cobras.
O baile dos mascarados prossegue pelas ruas da cidade. Até quando? O vírus é a flor das cobras e se eu tivesse poder, aqueceria o sol até derreter as rodas da carruagem de fogo, e ela cairia em milhões de pedaços incandescentes, até aniquilar o veneno para sempre.
E se penso, já acontece na minha mente, dentro de mim, vão nascendo imagens concretas, ouço o barulho do fim do tormento se confundindo com as rodas da carruagem de fogo crepitando os vazios do universo, aqui embaixo as máscaras caindo dos rostos, a explosão de gente sorrindo, finalmente sem medo.
E no meio da gritaria, o meu eu no silêncio, morto o menino, nascido o homem maduro, observando pela réstia da porta o que sobrou, envolto pela dúvida soberba de sempre: ficar quando todos se vão, ou ir quando todos ficam.

Domingo 27.09.2020 às 01:24

O Tempo, o Vento e o dia que o temporal escondeu o final da novela.

Vento na cabeça de leão.jpg

Tenho uma relação antiga com o Vento, dele conheço até mesmo o rosto: é um jovem sorridente, da cor transparente, dos cabelos lisos jogados dos lados e ligeiro feito a vida.
Ah, o sorriso do Vento é uma imagem perene no meu fechar de olhos.
Conheço também seu inseparável companheiro, o Tempo: um velho banguela, feio e cruel.
Às vezes o Vento traz consigo a eterna namorada, uma moça linda chamada Brisa e dela desprende todo o encanto de antigas lembranças...
Na pequena casa de madeira, tínhamos a nossa televisão bem no centro da sala, majestosamente equilibrada por cima de uma mesinha. Às vezes dava choques ao apertar algum botão, e quando a imagem ficava ruim, tio José colocava bombril nas pontas da antena e tudo voltava a funcionar perfeitamente.
Nos rastros dos tanques sulcando a terra, os pingos grossos de chuva no começo da tarde daquele dia anunciavam o temporal que não tardou desabar.
Minha avó correu a tapar os espelhos da casa com lençol e a profetizar que seria ligeiro: “chuva de verão, passa logo” – garantiu, num riso de certeza – e danou a desvendar um segredo da natureza:
- Não tenha medo do barulho do trovão, enquanto você tapa os ouvidos e treme de medo, o perigo já passou, o que mata é a luz do raio, não o barulho do trovão.
Mas outubro ainda não era verão e o temporal durou mais de horas. Mesmo com o fim da chuva, o céu prosseguiu riscado de raios.
Exatamente quando os ponteiros do relógio se abriram como se fossem duas pernas, a luz acabou. Minha avó colocou as duas mãos em volta da cabeça:
- E agora, meu Deus?
Era dia do último capítulo da novela, quando finalmente seria revelado o assassino da megera e a mocinha finalmente resolveria se entregaria os lábios ao galã ou não. Todos sentimos o desespero, andando de um lado para o outro na escuridão, tensos, segurando pires de velas nas mãos. A luz só voltou de madrugada, quando todos dormíamos.
Nos primeiros minutos da manhã seguinte, debruçada na janela, minha avó percebeu ao longe a chegada da irmã Adelaide; os olhos brilhantes, a testa acesa, o rosto quase sem conseguir segurar os olhos. Vinha ligeira, como quem traz notícias boas e ruins.
Desesperou-se:
- Ela vai me contar o final da novela.
Tio José abriu um sorriso:
- E isso não é bom?
Vó Aurora balançou a cabeça:
- Não, eu não quero ouvir dela.
Antes de alguma pergunta, tratou de esclarecer:
- Ela não sabe contar estórias, vai logo para o final, dispensa detalhes e eu gosto mais dos detalhes do que qualquer outra coisa.
Coçou a cabeça branca, estalou os dedos, olhou para mim:
- Você precisa ir logo para o colégio, ouvir dos seus colegas e depois me contar.
- Mas por quê?
- Você sabe contar os detalhes.
E antes que a irmã batesse na porta, fingiu mal-estar, uma dor terrível na cabeça, fechou a porta do quarto e a mandou voltar no dia seguinte.
- Uh, uh, como sofro! – Gemia a avó, a voz saindo espigada, a cabeça enterrada no travesseiro.
Tia Adelaide suspirou, quase conformada.
- Mas eu queria tanto saber o fim da novela. Acabou a luz lá em casa na hora e....
Vó Aurora arregalou os olhos, levantou-se de supetão, jogou os cabelos nas costas, abriu a porta do quarto e abraçou a irmã.
- Almoce aqui – e apontou para mim com a testa – ele vai à escola e quando retornar nos contará como foi o final da novela.
- Mas a sua dor de cabeça?
- Ainda dói um pouquinho, mas logo passa de vez.
E foram coar o café.
Na escola ninguém sabia o final da novela, o corte da energia elétrica atingiu o bairro todo.
Ao voltar, abraçado pela angústia de não desapontar minha avó, encontrei todos ansiosos, inclusive o tio Gutemberg, que quase nunca nos visitava, mas imaginando que a eletricidade não tinha acabado pelas nossas bandas, também ansiava por saber o final da novela.
E tantos foram os brilhos de olhos na minha direção, me senti como se eu fosse a própria televisão.
Deve ter sido esse o momento que o teatro entrou em mim: todos sentados à minha frente, os olhos arregalados, ouvidos atentos a cada palavra, acompanhando atentamente os meus gestos: eu mentia, sem admitir nem mesmo para mim que mentia, inventava imagens, compunha falas como se estivesse escrevendo versos sem rimas.
- E então, e então? – perguntavam numa só voz – e a voz já não era minha, era a de um homem malvado, uma donzela indecisa, um herói montado a cavalo: e seguia para desvendar o assassino quando tia Adelaide se intrometeu no caminho:
- Aquela moça adoentada, conseguiu andar?
Logo ela, que não sabia contar os detalhes, queria saber as curvas da estória.
- Sim, sim, ela andou, acabou feliz.
- Eu sabia, eu sabia! Disse a minha avó, num sorriso triunfal.
E o assassino antes imaginado, falhou por instantes na minha mente. Tentei ganhar tempo:
- Sobrou bolo?
- Ora rapaz, depois você come, precisamos saber quem é o assassino!
Tio Gutemberg muitas vezes era irritante. Fiquei sem resposta imediata, resolvi ouvir antes de falar:
- O que vocês acham? Apostas, vamos, digam.
E a delícia ao perceber a ficção se tornando real aos olhos dos meus parentes:
- Com certeza foi o advogado. Disse tio José. Minha avó fez cara séria, uma descompostura balançando a cabeça negativamente:
- O doutor Cândido? Imagina! Ele é uma boa pessoa, jamais seria capaz...
- Quem foi então? – Tio Gutemberg formou na testa diversas rugas.
Ameacei responder, mas tia Adelaide foi mais rápida:
- Catarina, aquela sonsa, desconfio dela desde sempre.
Novas rugas na testa do tio Gutemberg, a mão peluda tremulando
num toque nervoso de dedos por cima da mesa:
- Não, uma mulher puxar o gatilho? Não creio – assegurou e depois me olhou, severo:
- Vamos menino, diga logo o nome do assassino!
E veio o estalo, como uma caneta de tinta fresca percorrendo um papel incrivelmente branco, a descrição do ato do meu assassino preferido, que só podia ser o filho rejeitado da morta. Não consegui falar, súbito surgiu na televisão o rosto pálido do repórter:
- Informamos que por causa do temporal da noite anterior, o qual ocasionou o corte da eletricidade por toda a cidade, repetiremos hoje, no mesmo horário, o final da novela....
- Poxa, quem diria? Foi na cidade toda, mesmo. – Suspirou aliviado o tio José.
- Não conte quem é o assassino! – Disse a minha avó, o olhar fulminante, o dedo magro perto da minha testa.
Tio Gutemberg me olhou com desprezo, tia Adelaide passou as mãos nos meus cabelos, “meu rico filho”, disse e beijou-me a testa.
Foram embora em seguida e a dia custou a passar. À noite, em volta da televisão, assistimos ao final da novela.
Um suspiro de alívio me tomou, acertei quase tudo, cheguei a comemorar quando a moça doente se levantou da cama e beijou o antigo namorado.
A cena final, inesquecível, Virgínia beijou o Afonso e fim.
Mas e o assassino?
Tia Adelaide estava certa desde o começo da novela, Catarina, a sonsa, era a assassina e eu nem desconfiei.
Ao longe raios, trovões...
O Tempo voa nas asas do amigo Vento, espalha pelo ar o cheiro de nova tempestade, mas a Brisa chega antes e abraça o meu rosto...
E nos primeiros pingos da chuva, converso com os fantasmas da minha avó e seus dois irmãos: ouçam a estória que lhes conto, todo escritor é um mentiroso, mas creiam, apesar do Tempo, vocês ainda existem no sopro do Vento.
No final confesso meu eterno medo da tempestade e eles desconfiam, respondem ao mesmo tempo: “deve ser noite de céu estrelado lá fora...”

Sábado 12.09.2020 às 02:54

O Vlad ruivo, o sorriso da tia morta e a noite dos hipocondríacos

André Alvez

Eu não sei exatamente se foi uma desculpa para sair do apartamento e ver como andam as coisas lá fora, ou se realmente estava sentindo umas pontadas no peito e vendo bolinhas coloridas flutuando no ar ao acordar.
Será grave? Morrer devia ser opcional, todavia, envelhecer é um saco. Saudades da juventude, de quando o único medo era pegar uma doença venérea.
E logo me vi na sala de espera do consultório do cardiologista. Uma poltrona sim, duas não, assim dispostas, na intenção de manter a distância entre as pessoas e evitar a contaminação pelo vírus corona. Máscaras, muitas máscaras. A mocinha na ponta é filha da senhora sentada duas poltronas depois. Os olhos idênticos entregam. Caso atípico de mãe mais bonita que a filha. Sinto uma vontade imensa de ir até elas e me apresentar: Olá, meu nome é Vladimir de La Mancha e só tenho medo de dentista. Elas nem me olham. Acho estranho. Tenho o costume perverso de imaginar que todas as mulheres do mundo estão interessadas em mim.
A secretária do médico é uma mulher da minha idade, ou quase isso, o olhar tristonho na cara ossuda me faz imaginar a sofrência de quem acorda todos os dias às cinco horas da manhã e passa quarenta minutos tentando encaracolar as pontas dos cabelos. Sorrio para ela que faz não perceber. Sofrência acarreta ignorância. Coço o queixo, a secretária me lembra uma tia, a respeitada dona Amélia, irmã do meu pai, morta no carnaval de 85, após anos trancada dentro de casa e que de repente escapou para a vida, farreou tanto, bebeu o que encontrou pela frente, fez sexo com o frentista no banheiro do posto de gasolina e depois com dois caminhoneiros estacionados na escuridão dos becos do jardim Paulista.
Um deles a fez engolir uma pílula branca e ela desabou de vez, caiu morta, fulminada, indiferente à luz do sol que surgia no horizonte.
A loucura daquela noite teve origem semanas antes, quando tia Amélia recebeu o diagnóstico de um cardiologista. Era um papel do tipo pena de morte. Sinto a dor no peito. Será doença hereditária?
Quando avisaram, meu pai colocou as duas mãos na cabeça e ficou repetindo:
- A Amélia, a Amélia?
Uma das poucas vezes que vi lágrimas no rosto do velho Coronel, as mãos trêmulas segurando o telefone enquanto olhava para minha mãe, que também colocou as mãos na cabeça, mesmo antes de saber a notícia:
- A Amélia? – Chorou e correu a me abraçar. Eu já era homem formado, mas a minha mãe quis me pegar no colo.
- Vladinho, Vladinho, a Amélia, a Amélia...
Sim, tia Amélia estava morta. Eu, que nunca fui com a cara dela, dei de ombros, já imaginando a choradeira dos dois no velório.
- Tão nova – disse o meu pai num balançar de cabeça diante do caixão – enquanto a minha mãe enxugava os olhos com um lenço, o soluço a cada cinco segundos e eu imaginando se demoraria o enterro, tinha futebol na televisão mais tarde e eu não perco jogos do Flamengo de jeito nenhum.
Devia ser proibido velórios aos domingos.
Na única vez que me aproximei do caixão me deparei com uma imagem surpreendente: tia Amélia estava sorrindo. Meu amigo escritor se postou ao meu lado. Apontei com a testa o corpo da tia Amélia.
- Percebeu o sorriso?
Ele se deteve:
- Parece mesmo.
- Você devia escrever um conto sobre defuntos sorrindo.
- Talvez... – respondeu num sorriso tímido, mas nunca escreveu.
Ajeitei a máscara no nariz e espantei os pensamentos de gente morta.
De repente um vulto enorme atravessou a sala, atrapalhando meus devaneios: um homem enorme e ruivo, o único no lugar que me dirigiu um cumprimento de sorriso permanente no rosto. O demônio é ruivo, costumava dizer a tia Amélia.
A voz do doutor escapou de repente de dentro da sala:
- Senhor Vladimir!
Levantamos ao mesmo tempo, o grandalhão ruivo e eu.  Apontei para ele:
- Seu nome é Vladimir?
- Sim. O seu também?
- Sim, olha que coisa?
O médico chama novamente:
- Senhor Vladimir.
- Qual deles? – Perguntamos ao mesmo tempo, o grandalhão e eu. Rimos. O doutor resolveu a situação.
- Vladimir De La Mancha.
Sorri para o outro Vladimir:
- Sou eu, mas não vou demorar, é só para pegar receita do remédio para a pressão.
- Nossa, olha só, eu também vim aqui só para isso.
Rimos.
O doutor me recebeu sem olhar diretamente para mim, a respiração ofegante na máscara branca, os óculos embaçados, os cabelos ensebados.
- Então senhor Vladimir, em que posso lhe ajudar?
- Eu sou cliente antigo, o senhor deve se lembrar de mim...
Só então ele ergueu o rosto e forçou a vista. Eu sorri dentro da máscara.
- Meu nome é Vladimir de La Mancha e só tenho medo de dentista.
Ele finalmente me reconheceu.
- Agora me lembrei. O senhor invocou que estava morrendo do coração tempos atrás.
- Ano passado. Estava vendo manchas.
- Sim, parece que foi ontem. Mas e agora, o que aconteceu?
- Eu acho que preciso aumentar a miligrama do remédio para pressão, ando ouvindo uns tic e tacs no peito, uma dorzinha de cabeça e a vista embaçada.
Ele não disse mais nada, enfiou no meu braço o aparelho para medir a pressão, fux fux fuuuxxx, o olhar no relógio, outro para mim:
- 12 por 9...
- E isso é bom?
- É ótimo. Sua pressão está normal, quase de um jovem;
Ato contínuo, enfiou o estetoscópio no meu peito e ficou olhando para o relógio no pulso.
- Normal...
- Mas eu ando vendo umas bolinhas e ouvindo uns tic tacs no coração, doutor.
- Vladimir, você tem o coração de ferro. Pode morrer de outra coisa, mas não do coração.
- Que outra coisa? – perguntei, desconfiado – ele sorriu.
- Fígado, rim, pulmão...
Senti uma leve tontura. Meu fígado, pobre do meu fígado, jorro nele bacias de álcool e gordura todos os dias. Meus pulmões, coitados, certamente são azuis, fumo desde os quinze anos. E os rins, meu Deus, como conseguem filtrar a bagaçada toda? Vou morrer, certeza.
- Mas aparentemente você não tem nada de grave. Vou pedir uns exames, só para confirmar.
- Doutor, seja sincero, eu corro risco de vida?
- Já disse, você tem o coração ótimo, o resto vamos ver depois do resultado dos exames de sangue. Aparentemente você está ótimo.
E se despediu de mim com um olhar de quem esconde segredos. Havia algo da tia Amélia naquele olhar.
Sai sem encarar as mulheres, imaginando o que podia fazer no restinho de vida que ainda me restava.
O grandalhão ruivo estava ao pé da porta.
- Vladimir Polinski – chamou o doutor.
Fiz um sinal de testa no rosto de quem se prepara para morrer. O ruivo me encarou como se ouvisse meu pensamento.
- Deu ruim lá dentro?
- Acho que vou morrer – e desabei numa confissão atrás da máscara – meus pulmões, os rins, o fígado, tudo lascado, ele nem falou da bexiga e eu vou ao banheiro urinar a cada cinco minutos...
- Cara, calma aí, espere eu sair, vamos conversar. Você está de carro?
- Não se incomode, vou pedir um Uber.
- Faço questão de lhe dar uma carona, me espere.
- Tá, estarei lá fora vendo o mundo enquanto posso.
Não precisei esperar muito, no máximo umas quinze respiradas profundas, atento mentalmente ao registro das coisas que ainda não fiz e talvez não tivesse mais tempo.
O ruivo veio até mim trazendo também um ar de desespero.
- Xará, ele me pediu uma porrada de exames. Estou com algum coisa ruim, certeza.
E quase nos abraçamos, o olhar quieto daqueles que desejam a colisão dos planetas e a morte do mundo todo.
- Venha, vamos – ele disse, me apontando o estacionamento.
O Vladimir ruivo tinha um Opalão branco, das rodas cromadas e bancos de couro. Para quem tem mais de cinquenta anos, não existe nada que supere o empolgante ronco do motor de um Opala.
Faltava assunto e de estalo me veio a confissão:
- Meu nome é Vladimir por causa do meu pai que invocou de juntar o nome da minha mãe com o dele.
- Cara, que incrível, comigo aconteceu a mesma coisa.
Coloquei as mãos no peito:
- Vladislau e Nadir.
Ele balançou a cabeça num sorriso sem fim, uma mão no volante, outra no peito:
-  Valda e Almir.
A voz da mulher do google maps mandava ele seguir, ele virava, mandava andar seiscentos metros, ele seguia mais de quilômetro, tudo levava a crer que queria continuar conversando.
- Vamos tomar umas cervejas? Sugeriu.
Foi o mesmo que oferecer bananas a um macaco.
Encontramos um bar aberto e nem era quatro da tarde.
- Fechamos às oito por causa de pandemia – avisou o dono do bar –.
Tinha um defeito terrível o outro Vladimir, não parava de falar e se elogiar, era mestre em tudo e, se não fosse a cerveja gelada, pediria um Uber disfarçadamente e iria embora. De repente ele começou a citar autores – odeio isso – Proust, Machado, Borges e um tal Casares:
- Morei em Buenos Aires e lá, ler é quase uma obrigação.
Sou mestre das desculpas esfarrapadas:
- Leio pouco, minha vista anda cansada.
Ele fez um gesto de desprezo com o canto da boca, quase um sorriso. Quando sorria, Vlad ruivo ficava parecido com a tia Amélia no caixão.
O tempo foi passando, a noite chegou e a cerveja parecia cada vez mais doce e gelada. Vlad ruivo queria me contar outras habilidades, a espuma escapando dos lábios, as máscaras esquecidas no canto do balcão, “fechamos às oito” lembrava o dono do bar. E não era oito quando a cerveja acabou. Tem conhaque? Só Presidente. Bebemos a garrafa inteira. E se o mundo acabar? Tem uísque? Uma garrafa de Passaporte, disse o dono do bar, que já estava fechado, mas ele foi camarada e nos deixou ficar com as portas abaixadas. Um homem bom, sem dúvidas, desnecessário corrigir o nome do uísque, porque de Passport eu entendo. Quando o uísque acabou, enxergamos um pé de limão no quintal. Eu faço a caipirinha, disse o Vlad Ruivo, já abrindo a garrafa de Velho Barreiro. E assim fomos até a lua dar nos ombros.
E não me lembro de quase mais nada, apenas imagens confusas, o ronco do motor do Opala, luzes piscando no teto, tal e qual os globos das antigas discotecas, sons difusos, fumaça no chão, vozes aqui e ali, nu o Vlad ruivo parecia um urso, no extremo do palco enxerguei o sorriso da tia Amélia numa das dançarinas e na hora ressoou nos meus ouvidos a voz do meu pai: “a Amélia, a Amélia?” E os rostos de máscaras passearam até a tia Amélia surgir me abraçando, terna, doce, eu que nunca gostei dela...
- O diabo é ruivo meu filho, nunca se esqueça.
E chorei ao invés de sorrir, porque a tia Amélia morreu sorrindo e eu não queria morrer de jeito nenhum: tão novo, diria meu pai, tão belo, diria a minha mãe, porra Vladimir, que merda você fez? Perguntaria o meu amigo escritor diante do meu cadáver esticado num caixão, sorrindo envolto em punhados de rosas amarelas.
Acordei no dia seguinte, perto das cinco da tarde, estirado na minha cama, nu e suado, esquecido de tudo, mas vivo e sorrindo.
Toquei meu corpo inteiro, nenhum rasgo, nada faltando, ausência de ardências.
E se não fosse a ressaca monstra, beberia uma cerveja, porque mais tarde tem jogo do Flamengo.
O pedido de exames devo ter deixado no bar, ou no Opala do Vlad ruivo.
-  Depois resolvo isso, ou esqueço de vez – disse comigo mesmo, em voz alta, atrapalhado pelo som do sonrisal explodindo no copo de água gelada.

  • de 4
  • Loja Virtual
    Busca Detalhada

    Está com dificuldades para encontrar? Utilize os filtros abaixo para aprimorar a sua busca.

    Por período

    Por categoria

    desenvolvido por: