Terça-Feira, 22.09.2020

Blog André Luis Alvez

Sábado 12.09.2020 às 02:54

O Vlad ruivo, o sorriso da tia morta e a noite dos hipocondríacos

André Alvez

Eu não sei exatamente se foi uma desculpa para sair do apartamento e ver como andam as coisas lá fora, ou se realmente estava sentindo umas pontadas no peito e vendo bolinhas coloridas flutuando no ar ao acordar.
Será grave? Morrer devia ser opcional, todavia, envelhecer é um saco. Saudades da juventude, de quando o único medo era pegar uma doença venérea.
E logo me vi na sala de espera do consultório do cardiologista. Uma poltrona sim, duas não, assim dispostas, na intenção de manter a distância entre as pessoas e evitar a contaminação pelo vírus corona. Máscaras, muitas máscaras. A mocinha na ponta é filha da senhora sentada duas poltronas depois. Os olhos idênticos entregam. Caso atípico de mãe mais bonita que a filha. Sinto uma vontade imensa de ir até elas e me apresentar: Olá, meu nome é Vladimir de La Mancha e só tenho medo de dentista. Elas nem me olham. Acho estranho. Tenho o costume perverso de imaginar que todas as mulheres do mundo estão interessadas em mim.
A secretária do médico é uma mulher da minha idade, ou quase isso, o olhar tristonho na cara ossuda me faz imaginar a sofrência de quem acorda todos os dias às cinco horas da manhã e passa quarenta minutos tentando encaracolar as pontas dos cabelos. Sorrio para ela que faz não perceber. Sofrência acarreta ignorância. Coço o queixo, a secretária me lembra uma tia, a respeitada dona Amélia, irmã do meu pai, morta no carnaval de 85, após anos trancada dentro de casa e que de repente escapou para a vida, farreou tanto, bebeu o que encontrou pela frente, fez sexo com o frentista no banheiro do posto de gasolina e depois com dois caminhoneiros estacionados na escuridão dos becos do jardim Paulista.
Um deles a fez engolir uma pílula branca e ela desabou de vez, caiu morta, fulminada, indiferente à luz do sol que surgia no horizonte.
A loucura daquela noite teve origem semanas antes, quando tia Amélia recebeu o diagnóstico de um cardiologista. Era um papel do tipo pena de morte. Sinto a dor no peito. Será doença hereditária?
Quando avisaram, meu pai colocou as duas mãos na cabeça e ficou repetindo:
- A Amélia, a Amélia?
Uma das poucas vezes que vi lágrimas no rosto do velho Coronel, as mãos trêmulas segurando o telefone enquanto olhava para minha mãe, que também colocou as mãos na cabeça, mesmo antes de saber a notícia:
- A Amélia? – Chorou e correu a me abraçar. Eu já era homem formado, mas a minha mãe quis me pegar no colo.
- Vladinho, Vladinho, a Amélia, a Amélia...
Sim, tia Amélia estava morta. Eu, que nunca fui com a cara dela, dei de ombros, já imaginando a choradeira dos dois no velório.
- Tão nova – disse o meu pai num balançar de cabeça diante do caixão – enquanto a minha mãe enxugava os olhos com um lenço, o soluço a cada cinco segundos e eu imaginando se demoraria o enterro, tinha futebol na televisão mais tarde e eu não perco jogos do Flamengo de jeito nenhum.
Devia ser proibido velórios aos domingos.
Na única vez que me aproximei do caixão me deparei com uma imagem surpreendente: tia Amélia estava sorrindo. Meu amigo escritor se postou ao meu lado. Apontei com a testa o corpo da tia Amélia.
- Percebeu o sorriso?
Ele se deteve:
- Parece mesmo.
- Você devia escrever um conto sobre defuntos sorrindo.
- Talvez... – respondeu num sorriso tímido, mas nunca escreveu.
Ajeitei a máscara no nariz e espantei os pensamentos de gente morta.
De repente um vulto enorme atravessou a sala, atrapalhando meus devaneios: um homem enorme e ruivo, o único no lugar que me dirigiu um cumprimento de sorriso permanente no rosto. O demônio é ruivo, costumava dizer a tia Amélia.
A voz do doutor escapou de repente de dentro da sala:
- Senhor Vladimir!
Levantamos ao mesmo tempo, o grandalhão ruivo e eu.  Apontei para ele:
- Seu nome é Vladimir?
- Sim. O seu também?
- Sim, olha que coisa?
O médico chama novamente:
- Senhor Vladimir.
- Qual deles? – Perguntamos ao mesmo tempo, o grandalhão e eu. Rimos. O doutor resolveu a situação.
- Vladimir De La Mancha.
Sorri para o outro Vladimir:
- Sou eu, mas não vou demorar, é só para pegar receita do remédio para a pressão.
- Nossa, olha só, eu também vim aqui só para isso.
Rimos.
O doutor me recebeu sem olhar diretamente para mim, a respiração ofegante na máscara branca, os óculos embaçados, os cabelos ensebados.
- Então senhor Vladimir, em que posso lhe ajudar?
- Eu sou cliente antigo, o senhor deve se lembrar de mim...
Só então ele ergueu o rosto e forçou a vista. Eu sorri dentro da máscara.
- Meu nome é Vladimir de La Mancha e só tenho medo de dentista.
Ele finalmente me reconheceu.
- Agora me lembrei. O senhor invocou que estava morrendo do coração tempos atrás.
- Ano passado. Estava vendo manchas.
- Sim, parece que foi ontem. Mas e agora, o que aconteceu?
- Eu acho que preciso aumentar a miligrama do remédio para pressão, ando ouvindo uns tic e tacs no peito, uma dorzinha de cabeça e a vista embaçada.
Ele não disse mais nada, enfiou no meu braço o aparelho para medir a pressão, fux fux fuuuxxx, o olhar no relógio, outro para mim:
- 12 por 9...
- E isso é bom?
- É ótimo. Sua pressão está normal, quase de um jovem;
Ato contínuo, enfiou o estetoscópio no meu peito e ficou olhando para o relógio no pulso.
- Normal...
- Mas eu ando vendo umas bolinhas e ouvindo uns tic tacs no coração, doutor.
- Vladimir, você tem o coração de ferro. Pode morrer de outra coisa, mas não do coração.
- Que outra coisa? – perguntei, desconfiado – ele sorriu.
- Fígado, rim, pulmão...
Senti uma leve tontura. Meu fígado, pobre do meu fígado, jorro nele bacias de álcool e gordura todos os dias. Meus pulmões, coitados, certamente são azuis, fumo desde os quinze anos. E os rins, meu Deus, como conseguem filtrar a bagaçada toda? Vou morrer, certeza.
- Mas aparentemente você não tem nada de grave. Vou pedir uns exames, só para confirmar.
- Doutor, seja sincero, eu corro risco de vida?
- Já disse, você tem o coração ótimo, o resto vamos ver depois do resultado dos exames de sangue. Aparentemente você está ótimo.
E se despediu de mim com um olhar de quem esconde segredos. Havia algo da tia Amélia naquele olhar.
Sai sem encarar as mulheres, imaginando o que podia fazer no restinho de vida que ainda me restava.
O grandalhão ruivo estava ao pé da porta.
- Vladimir Polinski – chamou o doutor.
Fiz um sinal de testa no rosto de quem se prepara para morrer. O ruivo me encarou como se ouvisse meu pensamento.
- Deu ruim lá dentro?
- Acho que vou morrer – e desabei numa confissão atrás da máscara – meus pulmões, os rins, o fígado, tudo lascado, ele nem falou da bexiga e eu vou ao banheiro urinar a cada cinco minutos...
- Cara, calma aí, espere eu sair, vamos conversar. Você está de carro?
- Não se incomode, vou pedir um Uber.
- Faço questão de lhe dar uma carona, me espere.
- Tá, estarei lá fora vendo o mundo enquanto posso.
Não precisei esperar muito, no máximo umas quinze respiradas profundas, atento mentalmente ao registro das coisas que ainda não fiz e talvez não tivesse mais tempo.
O ruivo veio até mim trazendo também um ar de desespero.
- Xará, ele me pediu uma porrada de exames. Estou com algum coisa ruim, certeza.
E quase nos abraçamos, o olhar quieto daqueles que desejam a colisão dos planetas e a morte do mundo todo.
- Venha, vamos – ele disse, me apontando o estacionamento.
O Vladimir ruivo tinha um Opalão branco, das rodas cromadas e bancos de couro. Para quem tem mais de cinquenta anos, não existe nada que supere o empolgante ronco do motor de um Opala.
Faltava assunto e de estalo me veio a confissão:
- Meu nome é Vladimir por causa do meu pai que invocou de juntar o nome da minha mãe com o dele.
- Cara, que incrível, comigo aconteceu a mesma coisa.
Coloquei as mãos no peito:
- Vladislau e Nadir.
Ele balançou a cabeça num sorriso sem fim, uma mão no volante, outra no peito:
-  Valda e Almir.
A voz da mulher do google maps mandava ele seguir, ele virava, mandava andar seiscentos metros, ele seguia mais de quilômetro, tudo levava a crer que queria continuar conversando.
- Vamos tomar umas cervejas? Sugeriu.
Foi o mesmo que oferecer bananas a um macaco.
Encontramos um bar aberto e nem era quatro da tarde.
- Fechamos às oito por causa de pandemia – avisou o dono do bar –.
Tinha um defeito terrível o outro Vladimir, não parava de falar e se elogiar, era mestre em tudo e, se não fosse a cerveja gelada, pediria um Uber disfarçadamente e iria embora. De repente ele começou a citar autores – odeio isso – Proust, Machado, Borges e um tal Casares:
- Morei em Buenos Aires e lá, ler é quase uma obrigação.
Sou mestre das desculpas esfarrapadas:
- Leio pouco, minha vista anda cansada.
Ele fez um gesto de desprezo com o canto da boca, quase um sorriso. Quando sorria, Vlad ruivo ficava parecido com a tia Amélia no caixão.
O tempo foi passando, a noite chegou e a cerveja parecia cada vez mais doce e gelada. Vlad ruivo queria me contar outras habilidades, a espuma escapando dos lábios, as máscaras esquecidas no canto do balcão, “fechamos às oito” lembrava o dono do bar. E não era oito quando a cerveja acabou. Tem conhaque? Só Presidente. Bebemos a garrafa inteira. E se o mundo acabar? Tem uísque? Uma garrafa de Passaporte, disse o dono do bar, que já estava fechado, mas ele foi camarada e nos deixou ficar com as portas abaixadas. Um homem bom, sem dúvidas, desnecessário corrigir o nome do uísque, porque de Passport eu entendo. Quando o uísque acabou, enxergamos um pé de limão no quintal. Eu faço a caipirinha, disse o Vlad Ruivo, já abrindo a garrafa de Velho Barreiro. E assim fomos até a lua dar nos ombros.
E não me lembro de quase mais nada, apenas imagens confusas, o ronco do motor do Opala, luzes piscando no teto, tal e qual os globos das antigas discotecas, sons difusos, fumaça no chão, vozes aqui e ali, nu o Vlad ruivo parecia um urso, no extremo do palco enxerguei o sorriso da tia Amélia numa das dançarinas e na hora ressoou nos meus ouvidos a voz do meu pai: “a Amélia, a Amélia?” E os rostos de máscaras passearam até a tia Amélia surgir me abraçando, terna, doce, eu que nunca gostei dela...
- O diabo é ruivo meu filho, nunca se esqueça.
E chorei ao invés de sorrir, porque a tia Amélia morreu sorrindo e eu não queria morrer de jeito nenhum: tão novo, diria meu pai, tão belo, diria a minha mãe, porra Vladimir, que merda você fez? Perguntaria o meu amigo escritor diante do meu cadáver esticado num caixão, sorrindo envolto em punhados de rosas amarelas.
Acordei no dia seguinte, perto das cinco da tarde, estirado na minha cama, nu e suado, esquecido de tudo, mas vivo e sorrindo.
Toquei meu corpo inteiro, nenhum rasgo, nada faltando, ausência de ardências.
E se não fosse a ressaca monstra, beberia uma cerveja, porque mais tarde tem jogo do Flamengo.
O pedido de exames devo ter deixado no bar, ou no Opala do Vlad ruivo.
-  Depois resolvo isso, ou esqueço de vez – disse comigo mesmo, em voz alta, atrapalhado pelo som do sonrisal explodindo no copo de água gelada.

Sexta-Feira 04.09.2020 às 11:46

A cabeça de boi, dois peixes de lágrimas e os segredos da prosa.

André Alvez

Num lugar onde a terra fica mais perto da lua, a deusa Yebá Bëló, debruçada na janela do seu castelo de quartzo, avistou a mata se abrir num rufar de ventos, mostrando diante de seus olhos de pedra imagens do futuro.
Em meio a névoa que se formou, enxergou uma bela cidade, das ruas largas e rodeada de flores de cores diversas. Luz, muita luz. Era um campo bem grande, e as flores de suas árvores tinham o perfume de terra vermelha.
A deusa se emocionou. Nunca antes havia visto um lugar tão belo. Seu rosto pálido enrubesceu e chorou como cantam os passarinhos. Duas gotas de lágrimas caíram em meio ao vendaval, escorreram da janela até o jardim, mergulhando num pequeno veio d’água. Não conseguiram se juntar, a corrente d’água logo se tornou enxurrada, levou cada gota para um canto, engolidas pelo redemoinho que se formou.
Yabá Bëló fez um gesto de mãos e as gotas se transformaram em peixes da cor de lágrimas.
Cada peixe sentiu a presença do outro e tentaram se encontrar, nadando loucamente entre os veios d’água como se estivessem em um labirinto.
A deusa sorriu: “tudo o que é sagrado um dia se encontra” fechou a janela e se trancou no seu castelo de quartzo levando na mente a imagem da bela cidade que ainda não existia.
Tempos depois...
Aconteceu durante o eclipse, quando de repente o dia se tornou noite, enlouquecendo os animais.
O boi desgarrado caminhou lentamente pelo topo de uma pequena elevação, percebeu, com o encantamento só permitido aos bois em dias de eclipses, ao longe o encontro de dois córregos como se fizessem parte de um só.
Se pudesse pensar, se tivesse a capacidade de imaginar, diria o boi consigo mesmo: que campo grande lindo é aquele? E de tão encantado, desconsiderou os perigos, prosseguiu caminhando até que de repente surgiu à sua frente uma onça faminta. Dos olhos da pintada, um raio de ataque refletiu. O boi não recuou, sabia que seria facilmente alcançado. Entre eles existia apenas um imenso tronco de árvore quase seco, restos de uma gigantesca e milenar árvore, lisa e sem galhos, há poucos passos do boi, distante mais de cinquenta metros da onça.
Na esperteza consagrada aos bois apenas nos dias de eclipse, correu até o tronco da árvore lisa, usou o casco afiado e o chifre pontiagudo, fez um esforço supremo até conseguir se pendurar na ponta da árvore seca. A onça ficou dando voltas, urrando de raiva, a fome escapando pela boca em forma de baba. Se pudesse falar, a onça, que nada sabia dos poderes do eclipse, reclamaria com a natureza: como pôde o boi escalar uma árvore, justamente a única sem galhos, na qual não posso subir para caçá-lo? Por instinto, imaginou que uma hora o bicho desceria. Assim pensando, permaneceu em vigília. O eclipse acabou e o dia se transformou em noite diversas vezes, nem a onça desistia, nem o boi descia. No dia que o céu não brilhou por conta das nuvens, a onça resolveu buscar outra caça. O boi não percebeu, morreu na noite seguinte, de frio, medo e sede. Seu corpo apodreceu, despencou aos poucos, até restar apenas a cabeça em cima do mastro enorme, os olhos secos voltados para o local de encontro entre os dois córregos, como se fosse um fiel vigilante.
Durante diversos eclipses, os peixes da cor de lágrimas prosseguiram se buscando.
Entre a correnteza um foi para o sul, outro para o norte, fizeram o contorno no delta do grande rio, cada um a seu tempo, invadiram os corixos, nadaram, nadaram e nadaram sem descanso.
No mesmo instante que o boi morria, há poucos quilômetros da árvore seca e sem galhos na qual pendia a cabeça do boi, a correnteza se tornou mais branda e o barulho do encontro dos dois córregos fez brilhar as pedras do encosto.  O primeiro peixe era o feminino e se chamou de Prosa, o segundo peixe chegou em seguida, de nome Segredo. Seus olhos se encontraram finalmente. Nadaram num resto de força até ficarem bem perto, tão perto, e se peixes pudessem sorrir, teriam sorrido, se pudessem falar diriam alguma frase de amor. Prosa e Segredo finalmente unidos, escorados numa pedra coberta de musgos.
Então da sombra de um vegetal, partiu fulminante o voo de uma garça. Primeiro abocanhou a Prosa, deixando o Segredo assustado, sem ação, dando voltas em torno de si, apavorado de um tanto, não percebeu o novo ataque da ave insaciável, que o apanhou num certeiro ataque.
A garça pousou acima de uma pedra no meio do córrego para descansar. Prosa e Segredo finalmente se tornaram um só dentro da barriga da ave, juntos formaram a lágrima densa e forte, salgada de um tanto, tal qual um facho de fogo a arder dentro da barriga do bicho.
A ave sentiu a explosão dentro de si. Um suspirar profundo, o lamber apressado e trêmulo das patas, tentou alçar voo, arrastou-se pesada e surpresa, fatigada ao extremo, até tombar em meio à terra vermelha.
O passar do tempo incumbiu a terra vermelha que tombou a garça a se transformar num lençol de grama da qual nasceram diversos pares de flor petalada.
Flores e espinhos.
A beleza das flores atraiu as abelhas e as borboletas e elas espalharam os pólens por todo aquele imenso campo grande.
E passaram-se anos.
Os homens chegaram tempos depois e se deram com a visão dos majestosos e coloridos ipês floridos de várias cores.
Ninguém sabe ao certo qual foi o primeiro que por aqui chegou, se o fazendeiro da Cabreúva, o viajante mineiro, ou a escrava liberta.
Certamente, porém, foi Eva a primeira a pisar no espinho e se deixar dominar pelo perfume da terra vermelha. Apesar da dor provocada pelos espinhos enganchados nos pés, se encantou com o cheiro e a beleza da flor, levou-a até perto do rosto e assoprou de um tanto, fazendo os pólens voarem ao seu redor até formar no ar o rosto sagrado de Yebá Bëló.
Eva sorriu, os grandes olhos aguados, duas lágrimas escapadas, salgando a terra na qual seus pés se prenderam para sempre.
Tempos depois, antes dos quartéis e dos trens, o velho fazendeiro resolveu erguer uma porteira diferente das demais: forte e potente, ferro de pouca liga, quase puro, com cinco ou seis dobradiças, para ranger alto quando tocadas, e assim avisar da chegada das boiadas: o portão de ferro. Dos campos de vacaria vieram as comitivas e os carretos. O gado abriu um trieiro na mata, depois os homens marcaram a estrada com facão, abriram o caminho na força das mãos, até se encontrarem exatamente diante do imenso mastro de árvore na qual pendia uma esplêndida cabeça de boi.
Mais tempo correu e hoje o portão de ferro é uma Avenida movimentada que dá acesso ao monumento da Cabeça de Boi.
Nasci ali bem perto, no quintal longo e estreito no qual pisei numa dessas flores das pétalas coloridas e o espinho formou raízes nos meus pés.
Penso nisso enquanto o meu carro para no cruzamento onde antes existia o portão de ferro. Aguardo o sinal abrir e depois percorro até quase o final da Avenida, passo em frente à antiga casa que nasci, aquela mesma da qual fomos expulsos por razões que nenhuma prosa consegue desvendar o segredo. São espinhos e lágrimas, palavras que não rimam, razões enterradas.
Passeia por ali o vulto de uma ilusória Aurora.
Viro à direita, atravesso os quarteis, prossigo no mesmo caminho das boiadas, até dar de frente com o monumento erguido em homenagem à cabeça de boi.
Então ergo os vidros do carro, permito o vento bater forte no meu rosto até salgar a minha pele com o cheiro da terra vermelha, sinto minha alma envolvida pelos pólens das flores e a dor aguda dos espinhos fincados nos pés.
Olho em torno e contemplo a cidade nascida de duas gotas de lágrimas de uma Deusa, aquele mesmo campo, tão grande e floreado, que ainda hoje se reflete na cabeça de boi.

Sexta-Feira 04.09.2020 às 11:44

Cavalos correm pelos campos da colina chamuscada de chuva

André Alvez

Na sala do consultório, antes de ser chamado para a consulta com o oftalmologista, frases soltas percorrem o meu pensamento: os cavalos correm pelos campos da colina cor de cinza chamuscada de chuva.
À minha volta uma quantidade imensa de pessoas também aguarda a vez. Os olhos falham. Qual desespero maior do que a cegueira? Nem a certeza da morte é tão cruel. Eu escrevo, leio, vejo filmes. Se a luz dos meus olhos se forem, o som da boca irá junto, me calarei e mendigarei aos meus ouvidos para que não se fechem e ao menos eu possa ouvir o trotar dos cavalos correndo pelos campos da colina, guiado pelo tamborilar dos pingos da chuva, formando aos poucos chamuscos cinzas de quem apenas ouve e nada vê.
O frio de agosto me percorre enquanto a senhora de máscara cor de rosa ao meu lado pinga o colírio nos olhos sem pedir ajuda: ela mesma abre com as mãos as pálpebras e pinga uma gota em cada olho numa exatidão comovente. Depois sorri para mim, um riso convencido atrás da máscara.  Sinto por ela a mesma admiração que tenho pelos alpinistas, os paraquedistas e toda pessoa que desperdiça o domingo para lavar o carro ou ir à igreja.
O casal na outra ponta toma conta de uma única poltrona, vive num mundo apenas deles. Ela se deita no ombro do companheiro e parece que são uma só pessoa. Devem dormir de conchinha. Graziela cuida de mim, se encarregará de pingar o colírio. A moça se mexe no ombro do rapaz e ele alisa os seus cabelos. Cena linda que registro na mente, mesmo com os olhos um tanto embaçados. Qual deles está com problema nas vistas? E se um dos dois não enxergar mais? Os corpos se atrairão, certamente, e continuarão dormindo de conchinhas. Ouço ao longe o trotar dos cavalos. É nesse instante que consigo ouvir meu coração.
Peço socorro às imagens do passado, preciso fugir da realidade. Então se abre no meu pensamento a manhã de um domingo do passado, o mesmo sopro frio de agosto, vejo a minha mãe chegando da feira trazendo uma galinha embaixo do braço. Ouço nitidamente os cachorros latindo, “passa, passa” ela diz, tentando se desvencilhar, corro para ajuda-la e os olhos da galinha eram de fogo, sem piscar, o medo refletido, a percepção do fim. Meu padrasto surgiu de repente, um facão nas mãos, não disse nada, apanhou a galinha das mãos da minha mãe e lhe decepou a cabeça. Mesmo morto, o bicho pulou várias vezes, esparramando um filete de sangue pelo chão vermelho, imagem presa na minha mente para sempre, a criança de dez anos encarando os pequenos olhos da galinha morta, inerte, sem luz. Senti a crueldade humana e não conseguia olhar para minha mãe.
Durou até o almoço ficar pronto e a galinha era o prato principal:
- Eu quero a coxa! Disse e provavelmente os meus olhos brilharam, sem piscar.
A fome dói mais que a piedade.
Tempos depois, levei meus filhos pela primeira vez à uma churrascaria. O Bruno queria coração de frango e o garçom fez descer do espeto até o seu prato cinco ou seis pedaços de uma só vez. Ele comeu, adorou, pediu mais. Fiz um alerta:
- Coma tudo, não deixe nada, fique sabendo que cada coração desses era de um frango que morreu para você se alimentar. – Ele me olhou com olhos de surpresa e no instante seguinte seus olhos se transformaram numa cachoeira de lágrimas (nunca vi ninguém chorar tão bem quanto o meu filho Bruno) e soluçava, o rosto vermelho de tanto chorar, vez em quando lançava em minha direção um olhar de revolta misturado com piedade –.
- Você devia ter me falado antes, pai.
- Achei que você soubesse. De onde mais poderia sair o coração de frango se não do peito do bicho vivo? Achou que davam em árvores?
- Achei.
E não disse mais nada, comeu tudo e não falamos mais sobre o assunto.
A senhora do colírio me desperta, me traz de volta à realidade como num beliscão: retira a máscara cor de rosa do rosto por instantes, olha para mim como se me conhecesse há muito tempo, confidencia:
- Fico sufocada às vezes.
Eu sorrio de volta e meu gesto de mãos são palavras, tudo bem, acontece, mas seja rápida.
Ela tem a voz do passado, tal qual os pingos da chuva chamuscando os campos da colina até torna-la cinza.
Eu sempre parei para reparar as pessoas, as flores e as árvores. Deve ser esse o motivo de guardar tantas lembranças. E volto ao passado: nunca me fizeram um bolo de aniversário, jamais ouvi o cantar de parabéns em minha homenagem, mas a fumaça escapando no fio da vela do bolo tem o mesmo cheiro de velório. Fecho os olhos e sinto aquele cheiro. Coisa de aquariano.
Antes, quando diziam que a vida é passageira, eu ria, queria comer o bolo de aniversário dos outros, ver a vela se apagando até o cheiro da festa se confundir com o cheiro de velórios. Os bolos tinham gosto de manteiga e algumas bolinhas brilhosas de chumbo doíam os dentes, mas ninguém deixava restos no prato.
O casal enfim se mexe, ele atende o celular e aponta para a companheira o relógio na parede.
O carinho dá lugar à pressa.
As horas...Nunca acreditamos no relógio, mas os ponteiros andam, tic, tac, e os minutos se tornam horas, o dia é segunda, mas logo é domingo, a semana que vem é amanhã e já se passou tanto tempo desde aquela vez que vi minha mãe trazer a galinha embaixo dos braços, o corte na cabeça, o cheiro do assado, frio de agosto arrancando lágrimas de sopro de vento.
Coço os olhos ardentes, naquele tempo não precisava suspirar pelas luzes do dia, eu enxergava tudo, de perto e de longe.
A espera também me faz ouvir músicas na mente, vejo a batuta do maestro sem enxergar-lhe as mãos, a cortina ainda aberta, mas o pano já é opaco.
Enfim sou chamado, na frente do casal e da senhora da máscara rosa. Nunca saberei qual dos dois está com problemas na visão e a senhora da máscara rosa pode até ser um fantasma, porque de passagem, olhei para o casal  e vi uma vela de aniversário se apagando, mas quando olhei para a senhora da máscara cor de rosa, senti o cheiro de velório.
O médico me recebe num sorriso, já me conhece.
- Não é nada grave, não precisa fazer drama.
- Estava ardendo e tudo embaçado.
- Vou aumentar o grau.
- Mas você está dizendo que terei que usar colírio para o resto da vida.
- Sim, um simples colírio. Imagine a diferença para alguém que precisa implantar uma lente ou algo assim.
Sou descrente, mas nesses momentos, murmuro orações.
Ao sair, a senhora ainda aguarda a sua vez e me lança um sorriso atrás da máscara rosa.
Ela conhece o meu desespero, sabe que jamais conseguirei pingar sozinho o colírio nos olhos.
Será?
A vista anda fraca, mas o pensamento é feito a chama da vela do bolo de aniversário: tremula, mas ainda queima, segurando o sopro do tempo, tic, tac, tic, tac.
Tento, e consigo, uma gota certeira de colírio nos olhos bem abertos.
E então já posso ver os cavalos correndo pelos campos da colina, tudo verde, brilhante, sem nenhum tom de cinza.

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