Sexta-Feira, 30.10.2020

Blog André Luis Alvez

Sexta-Feira 04.09.2020 às 11:46

A cabeça de boi, dois peixes de lágrimas e os segredos da prosa.

André Alvez

Num lugar onde a terra fica mais perto da lua, a deusa Yebá Bëló, debruçada na janela do seu castelo de quartzo, avistou a mata se abrir num rufar de ventos, mostrando diante de seus olhos de pedra imagens do futuro.
Em meio a névoa que se formou, enxergou uma bela cidade, das ruas largas e rodeada de flores de cores diversas. Luz, muita luz. Era um campo bem grande, e as flores de suas árvores tinham o perfume de terra vermelha.
A deusa se emocionou. Nunca antes havia visto um lugar tão belo. Seu rosto pálido enrubesceu e chorou como cantam os passarinhos. Duas gotas de lágrimas caíram em meio ao vendaval, escorreram da janela até o jardim, mergulhando num pequeno veio d’água. Não conseguiram se juntar, a corrente d’água logo se tornou enxurrada, levou cada gota para um canto, engolidas pelo redemoinho que se formou.
Yabá Bëló fez um gesto de mãos e as gotas se transformaram em peixes da cor de lágrimas.
Cada peixe sentiu a presença do outro e tentaram se encontrar, nadando loucamente entre os veios d’água como se estivessem em um labirinto.
A deusa sorriu: “tudo o que é sagrado um dia se encontra” fechou a janela e se trancou no seu castelo de quartzo levando na mente a imagem da bela cidade que ainda não existia.
Tempos depois...
Aconteceu durante o eclipse, quando de repente o dia se tornou noite, enlouquecendo os animais.
O boi desgarrado caminhou lentamente pelo topo de uma pequena elevação, percebeu, com o encantamento só permitido aos bois em dias de eclipses, ao longe o encontro de dois córregos como se fizessem parte de um só.
Se pudesse pensar, se tivesse a capacidade de imaginar, diria o boi consigo mesmo: que campo grande lindo é aquele? E de tão encantado, desconsiderou os perigos, prosseguiu caminhando até que de repente surgiu à sua frente uma onça faminta. Dos olhos da pintada, um raio de ataque refletiu. O boi não recuou, sabia que seria facilmente alcançado. Entre eles existia apenas um imenso tronco de árvore quase seco, restos de uma gigantesca e milenar árvore, lisa e sem galhos, há poucos passos do boi, distante mais de cinquenta metros da onça.
Na esperteza consagrada aos bois apenas nos dias de eclipse, correu até o tronco da árvore lisa, usou o casco afiado e o chifre pontiagudo, fez um esforço supremo até conseguir se pendurar na ponta da árvore seca. A onça ficou dando voltas, urrando de raiva, a fome escapando pela boca em forma de baba. Se pudesse falar, a onça, que nada sabia dos poderes do eclipse, reclamaria com a natureza: como pôde o boi escalar uma árvore, justamente a única sem galhos, na qual não posso subir para caçá-lo? Por instinto, imaginou que uma hora o bicho desceria. Assim pensando, permaneceu em vigília. O eclipse acabou e o dia se transformou em noite diversas vezes, nem a onça desistia, nem o boi descia. No dia que o céu não brilhou por conta das nuvens, a onça resolveu buscar outra caça. O boi não percebeu, morreu na noite seguinte, de frio, medo e sede. Seu corpo apodreceu, despencou aos poucos, até restar apenas a cabeça em cima do mastro enorme, os olhos secos voltados para o local de encontro entre os dois córregos, como se fosse um fiel vigilante.
Durante diversos eclipses, os peixes da cor de lágrimas prosseguiram se buscando.
Entre a correnteza um foi para o sul, outro para o norte, fizeram o contorno no delta do grande rio, cada um a seu tempo, invadiram os corixos, nadaram, nadaram e nadaram sem descanso.
No mesmo instante que o boi morria, há poucos quilômetros da árvore seca e sem galhos na qual pendia a cabeça do boi, a correnteza se tornou mais branda e o barulho do encontro dos dois córregos fez brilhar as pedras do encosto.  O primeiro peixe era o feminino e se chamou de Prosa, o segundo peixe chegou em seguida, de nome Segredo. Seus olhos se encontraram finalmente. Nadaram num resto de força até ficarem bem perto, tão perto, e se peixes pudessem sorrir, teriam sorrido, se pudessem falar diriam alguma frase de amor. Prosa e Segredo finalmente unidos, escorados numa pedra coberta de musgos.
Então da sombra de um vegetal, partiu fulminante o voo de uma garça. Primeiro abocanhou a Prosa, deixando o Segredo assustado, sem ação, dando voltas em torno de si, apavorado de um tanto, não percebeu o novo ataque da ave insaciável, que o apanhou num certeiro ataque.
A garça pousou acima de uma pedra no meio do córrego para descansar. Prosa e Segredo finalmente se tornaram um só dentro da barriga da ave, juntos formaram a lágrima densa e forte, salgada de um tanto, tal qual um facho de fogo a arder dentro da barriga do bicho.
A ave sentiu a explosão dentro de si. Um suspirar profundo, o lamber apressado e trêmulo das patas, tentou alçar voo, arrastou-se pesada e surpresa, fatigada ao extremo, até tombar em meio à terra vermelha.
O passar do tempo incumbiu a terra vermelha que tombou a garça a se transformar num lençol de grama da qual nasceram diversos pares de flor petalada.
Flores e espinhos.
A beleza das flores atraiu as abelhas e as borboletas e elas espalharam os pólens por todo aquele imenso campo grande.
E passaram-se anos.
Os homens chegaram tempos depois e se deram com a visão dos majestosos e coloridos ipês floridos de várias cores.
Ninguém sabe ao certo qual foi o primeiro que por aqui chegou, se o fazendeiro da Cabreúva, o viajante mineiro, ou a escrava liberta.
Certamente, porém, foi Eva a primeira a pisar no espinho e se deixar dominar pelo perfume da terra vermelha. Apesar da dor provocada pelos espinhos enganchados nos pés, se encantou com o cheiro e a beleza da flor, levou-a até perto do rosto e assoprou de um tanto, fazendo os pólens voarem ao seu redor até formar no ar o rosto sagrado de Yebá Bëló.
Eva sorriu, os grandes olhos aguados, duas lágrimas escapadas, salgando a terra na qual seus pés se prenderam para sempre.
Tempos depois, antes dos quartéis e dos trens, o velho fazendeiro resolveu erguer uma porteira diferente das demais: forte e potente, ferro de pouca liga, quase puro, com cinco ou seis dobradiças, para ranger alto quando tocadas, e assim avisar da chegada das boiadas: o portão de ferro. Dos campos de vacaria vieram as comitivas e os carretos. O gado abriu um trieiro na mata, depois os homens marcaram a estrada com facão, abriram o caminho na força das mãos, até se encontrarem exatamente diante do imenso mastro de árvore na qual pendia uma esplêndida cabeça de boi.
Mais tempo correu e hoje o portão de ferro é uma Avenida movimentada que dá acesso ao monumento da Cabeça de Boi.
Nasci ali bem perto, no quintal longo e estreito no qual pisei numa dessas flores das pétalas coloridas e o espinho formou raízes nos meus pés.
Penso nisso enquanto o meu carro para no cruzamento onde antes existia o portão de ferro. Aguardo o sinal abrir e depois percorro até quase o final da Avenida, passo em frente à antiga casa que nasci, aquela mesma da qual fomos expulsos por razões que nenhuma prosa consegue desvendar o segredo. São espinhos e lágrimas, palavras que não rimam, razões enterradas.
Passeia por ali o vulto de uma ilusória Aurora.
Viro à direita, atravesso os quarteis, prossigo no mesmo caminho das boiadas, até dar de frente com o monumento erguido em homenagem à cabeça de boi.
Então ergo os vidros do carro, permito o vento bater forte no meu rosto até salgar a minha pele com o cheiro da terra vermelha, sinto minha alma envolvida pelos pólens das flores e a dor aguda dos espinhos fincados nos pés.
Olho em torno e contemplo a cidade nascida de duas gotas de lágrimas de uma Deusa, aquele mesmo campo, tão grande e floreado, que ainda hoje se reflete na cabeça de boi.

Sexta-Feira 04.09.2020 às 11:44

Cavalos correm pelos campos da colina chamuscada de chuva

André Alvez

Na sala do consultório, antes de ser chamado para a consulta com o oftalmologista, frases soltas percorrem o meu pensamento: os cavalos correm pelos campos da colina cor de cinza chamuscada de chuva.
À minha volta uma quantidade imensa de pessoas também aguarda a vez. Os olhos falham. Qual desespero maior do que a cegueira? Nem a certeza da morte é tão cruel. Eu escrevo, leio, vejo filmes. Se a luz dos meus olhos se forem, o som da boca irá junto, me calarei e mendigarei aos meus ouvidos para que não se fechem e ao menos eu possa ouvir o trotar dos cavalos correndo pelos campos da colina, guiado pelo tamborilar dos pingos da chuva, formando aos poucos chamuscos cinzas de quem apenas ouve e nada vê.
O frio de agosto me percorre enquanto a senhora de máscara cor de rosa ao meu lado pinga o colírio nos olhos sem pedir ajuda: ela mesma abre com as mãos as pálpebras e pinga uma gota em cada olho numa exatidão comovente. Depois sorri para mim, um riso convencido atrás da máscara.  Sinto por ela a mesma admiração que tenho pelos alpinistas, os paraquedistas e toda pessoa que desperdiça o domingo para lavar o carro ou ir à igreja.
O casal na outra ponta toma conta de uma única poltrona, vive num mundo apenas deles. Ela se deita no ombro do companheiro e parece que são uma só pessoa. Devem dormir de conchinha. Graziela cuida de mim, se encarregará de pingar o colírio. A moça se mexe no ombro do rapaz e ele alisa os seus cabelos. Cena linda que registro na mente, mesmo com os olhos um tanto embaçados. Qual deles está com problema nas vistas? E se um dos dois não enxergar mais? Os corpos se atrairão, certamente, e continuarão dormindo de conchinhas. Ouço ao longe o trotar dos cavalos. É nesse instante que consigo ouvir meu coração.
Peço socorro às imagens do passado, preciso fugir da realidade. Então se abre no meu pensamento a manhã de um domingo do passado, o mesmo sopro frio de agosto, vejo a minha mãe chegando da feira trazendo uma galinha embaixo do braço. Ouço nitidamente os cachorros latindo, “passa, passa” ela diz, tentando se desvencilhar, corro para ajuda-la e os olhos da galinha eram de fogo, sem piscar, o medo refletido, a percepção do fim. Meu padrasto surgiu de repente, um facão nas mãos, não disse nada, apanhou a galinha das mãos da minha mãe e lhe decepou a cabeça. Mesmo morto, o bicho pulou várias vezes, esparramando um filete de sangue pelo chão vermelho, imagem presa na minha mente para sempre, a criança de dez anos encarando os pequenos olhos da galinha morta, inerte, sem luz. Senti a crueldade humana e não conseguia olhar para minha mãe.
Durou até o almoço ficar pronto e a galinha era o prato principal:
- Eu quero a coxa! Disse e provavelmente os meus olhos brilharam, sem piscar.
A fome dói mais que a piedade.
Tempos depois, levei meus filhos pela primeira vez à uma churrascaria. O Bruno queria coração de frango e o garçom fez descer do espeto até o seu prato cinco ou seis pedaços de uma só vez. Ele comeu, adorou, pediu mais. Fiz um alerta:
- Coma tudo, não deixe nada, fique sabendo que cada coração desses era de um frango que morreu para você se alimentar. – Ele me olhou com olhos de surpresa e no instante seguinte seus olhos se transformaram numa cachoeira de lágrimas (nunca vi ninguém chorar tão bem quanto o meu filho Bruno) e soluçava, o rosto vermelho de tanto chorar, vez em quando lançava em minha direção um olhar de revolta misturado com piedade –.
- Você devia ter me falado antes, pai.
- Achei que você soubesse. De onde mais poderia sair o coração de frango se não do peito do bicho vivo? Achou que davam em árvores?
- Achei.
E não disse mais nada, comeu tudo e não falamos mais sobre o assunto.
A senhora do colírio me desperta, me traz de volta à realidade como num beliscão: retira a máscara cor de rosa do rosto por instantes, olha para mim como se me conhecesse há muito tempo, confidencia:
- Fico sufocada às vezes.
Eu sorrio de volta e meu gesto de mãos são palavras, tudo bem, acontece, mas seja rápida.
Ela tem a voz do passado, tal qual os pingos da chuva chamuscando os campos da colina até torna-la cinza.
Eu sempre parei para reparar as pessoas, as flores e as árvores. Deve ser esse o motivo de guardar tantas lembranças. E volto ao passado: nunca me fizeram um bolo de aniversário, jamais ouvi o cantar de parabéns em minha homenagem, mas a fumaça escapando no fio da vela do bolo tem o mesmo cheiro de velório. Fecho os olhos e sinto aquele cheiro. Coisa de aquariano.
Antes, quando diziam que a vida é passageira, eu ria, queria comer o bolo de aniversário dos outros, ver a vela se apagando até o cheiro da festa se confundir com o cheiro de velórios. Os bolos tinham gosto de manteiga e algumas bolinhas brilhosas de chumbo doíam os dentes, mas ninguém deixava restos no prato.
O casal enfim se mexe, ele atende o celular e aponta para a companheira o relógio na parede.
O carinho dá lugar à pressa.
As horas...Nunca acreditamos no relógio, mas os ponteiros andam, tic, tac, e os minutos se tornam horas, o dia é segunda, mas logo é domingo, a semana que vem é amanhã e já se passou tanto tempo desde aquela vez que vi minha mãe trazer a galinha embaixo dos braços, o corte na cabeça, o cheiro do assado, frio de agosto arrancando lágrimas de sopro de vento.
Coço os olhos ardentes, naquele tempo não precisava suspirar pelas luzes do dia, eu enxergava tudo, de perto e de longe.
A espera também me faz ouvir músicas na mente, vejo a batuta do maestro sem enxergar-lhe as mãos, a cortina ainda aberta, mas o pano já é opaco.
Enfim sou chamado, na frente do casal e da senhora da máscara rosa. Nunca saberei qual dos dois está com problemas na visão e a senhora da máscara rosa pode até ser um fantasma, porque de passagem, olhei para o casal  e vi uma vela de aniversário se apagando, mas quando olhei para a senhora da máscara cor de rosa, senti o cheiro de velório.
O médico me recebe num sorriso, já me conhece.
- Não é nada grave, não precisa fazer drama.
- Estava ardendo e tudo embaçado.
- Vou aumentar o grau.
- Mas você está dizendo que terei que usar colírio para o resto da vida.
- Sim, um simples colírio. Imagine a diferença para alguém que precisa implantar uma lente ou algo assim.
Sou descrente, mas nesses momentos, murmuro orações.
Ao sair, a senhora ainda aguarda a sua vez e me lança um sorriso atrás da máscara rosa.
Ela conhece o meu desespero, sabe que jamais conseguirei pingar sozinho o colírio nos olhos.
Será?
A vista anda fraca, mas o pensamento é feito a chama da vela do bolo de aniversário: tremula, mas ainda queima, segurando o sopro do tempo, tic, tac, tic, tac.
Tento, e consigo, uma gota certeira de colírio nos olhos bem abertos.
E então já posso ver os cavalos correndo pelos campos da colina, tudo verde, brilhante, sem nenhum tom de cinza.

Sábado 01.08.2020 às 12:34

Vou riscar as tatuagens e guardar o meu amor na masmorra.

André Alvez

O amor é um sentimento que mantenho preso numa masmorra. Quando solto é fogo que queima, o declínio da razão. Sou cega quando me apaixono, me transformo numa maluca, incapaz de raciocinar corretamente.

O que se passou pela minha cabeça quando resolvi tatuar o nome dele no meu braço? Não contente, acrescentei o símbolo do Flamengo, time que ele ama, logo eu, que nunca gostei de futebol. Gabriel não merecia nem um pingo da dor que senti. Em algum momento da nossa relação a luz se tornou intensa, veio a cegueira, o transe completo e o pássaro acabou liberto da gaiola.

Quando nos conhecemos, Gabriel fixou o rosto em mim na sala de aula de um curso de Excel, armado naquele jeito estranho de olhar, blasé e vagaroso, o sorriso que não começava nos lábios e sim nas rugas dos olhos. Toda mulher enxerga sem encarar: o homem era pequeno, mas confiante. Sou uma mulher grande em tudo, quase dois metros de altura, do nome difícil, Stephania, mesmo nome da minha bisavó, uma polaca de sangue forte, mulher benzedeira e parideira, mãe de doze filhos.

Os opostos se atraem. Eu queria apenas aprender a mexer com planilhas, a empresa estava pagando, precisava prestar atenção. O Gabriel não passava de um vagabundo que o pai pagou o curso para se livrar da presença dele dentro do quarto o dia todo. 

No intervalo, ele sentou-se na outra ponta da mureta e não desistiu enquanto não olhei para ele. Sorriu aberto, aquele riso feito cascata, começando nas rugas dos olhos e só depois atingindo a boca.

Um homem tão pequeno, o que poderia querer com uma mulher enorme como eu? Ele insistiu, o rosto fixo em mim. Retornei o sorriso e abaixei a cabeça. Depois me puni com um soquinho na coxa, detesto quando abaixo a cabeça.

No outro dia já se sentou ao meu lado, ignorando a aula, o professor, as fórmulas e os números nas planilhas.

- Oi, eu sou o Gabriel. – Disse, sem tremer a voz, o ar sonso-blasé.

- Oi – não revelei o meu nome, mas senti o rosto ferver e ele percebeu – 

- O que vamos fazer quando sairmos daqui Stephania?

Como sou burra, é claro que ele sabia o meu nome, ouviu diversas vezes durante a chamada. Foi então que o monstro da sedução me abraçou. Eu não tinha nada para fazer, nenhuma audiência, nenhum cliente para atender, nada.

- Não tenho nada para fazer. Você tem?

Voz baixa, rouca, o pensamento imaginando um rio buscando a cachoeira.

Mostrou-me o molho de chaves.

- Estou de moto. Um passeio?

Dei outro soquinho na coxa, a perna ameaçou tremer. Pensei dizer não, mas eu realmente não tinha nada para fazer e minha única dúvida era se aquela criatura tão pequena sabia pilotar uma moto.

- Tudo bem, vamos.

E não olhei mais para ele. A aula tinha ainda duas horas de duração, mas demorou eternamente.

Na saída, rosto lívido, o procurei em meio à multidão, até dar com ele no estacionamento da escola, sentado na motocicleta e olhando para mim, o sorriso já instalado nas rugas dos olhos, pronto para descer até a boca. 

Pelo menos a moto não é pequena, imaginei e sorri.

Montei num passar de perna único, como se fosse acostumada a andar de moto, ainda que a última vez tivesse acontecido na adolescência.

- Você se parece com a Marisa.

- Marisa?

- Marisa Horta.

- Ah sim... (Marisa Orth, ela de novo, sempre fazem essa comparação odiosa).

- Aonde vamos?

- Dar um rolê. Coloque o capacete e segura firme na minha cintura.

Juntei as mãos e ele acelerou. Estava um pouco gordo, deu para sentir, mas quando meus braços subiram até os seus ombros, a grande surpresa, ele tinha músculos. Talvez frequentasse alguma academia.

Gabriel rodou o centro da cidade e depois pegou a saída para São Paulo. O tempo todo falava alguma coisa que eu não entendia por causa do vento, e a tudo respondi sim. Quando ele virou e estacionou na garagem de um motel a minha reação foi uma mistura de surpresa, espanto e raiva. 

- Cara, a gente mal se conhece e...

Ele armou no rosto uma expressão de desapontamento, as mãos agitadas tentando ajeitar os cabelos esparramados pelo capacete:

- Você disse sim diversas vezes no caminho.

- Eu não ouvi nada do que você perguntou. O sim foi uma espécie de livramento.

- Até o convite para o motel você não ouviu?

- Não ouvi nada! Vento, capacete, cabelos nos ouvidos, surdez completa, entende? Você foi direto ao ponto, não falou nada de si, já veio me trazendo para um motel, você é maluco...

- Falei que sou solteiro e gosto de você desde os tempos do cursinho.

- Cursinho? Nos anos noventa? Cara, eu tinha dezoito anos!

- Não mudou quase nada...

Fiquei sem graça, um leve rubor tomou conta da minha face, não sabia o que dizer.

- Você nem se lembrou de mim. – Disse e suspirou fundo.

- Olha, não me leve a mal, mas eu nunca....

- Então suba e vamos embora. — Fez ele, um tanto enfurecido: —

Não foi um convite movido pelo sentimento de desculpa ou arrependimento, mas sim uma espécie de ordem, dura, direta e desde que saí da casa dos meus pais, não obedeço às ordens de ninguém. Além do mais, já estávamos mesmo ali e a última vez que fiz amor a Dilma ainda era a presidenta.

E porque os homens podem fazer sexo no primeiro encontro e as mulheres não? O gavião e a galinha? Comigo não. Afinal, ele não era totalmente desconhecido, já tínhamos convivido duas semanas no curso de Excel e fizemos cursinho nos anos noventa.

Apanhei o capacete das mãos dele:

- Tudo bem, vamos entrar.

Ele tremeu, eu dei soquinhos na coxa, e lá fomos nós. Uma cama imensa, o lençol caprichosamente esticado, a luz mortiça da tarde se acabando, o resto do mundo num silêncio cúmplice lá fora e o sorriso do Gabriel, aquele que começa nas rugas dos olhos e vai descendo até os cantos da boca, bem diante de mim.

Nada mais posso contar, minha intimidade está instalada no escuro de uma masmorra, que fica após a ponte acima do lago, no qual passeiam, de um lado para o outro, diversos crocodilos. Nem às sombras confesso os meus gemidos. Mas posso dizer que foi bom, quem diria, aquele homem pequeno...pequeno em tudo...Ah, embaixo da ponte que protege a masmorra há uma corrente de água cristalina em busca da cachoeira...

No outro dia ele já me esperava em frente à escola, ornado de um brilho de triunfo difícil de explicar. Me apanhou pelas mãos e tentou me beijar. Dei-lhe o rosto, neguei o que ofertei com fartura menos de vinte e quatro horas antes, entre quatro paredes. Ele insistiu e cedi sem muito esforço.

Eu não queria namorar ninguém, mas quem sabe, depois de ontem, os crocodilos que protegem a masmorra morreram afogados, colocando fim às noites solitárias...

O que começou num encontro casual, se tornou sério, engatamos firme o namoro e no começo foi tudo tão bom... Gabriel me apresentou à sua família, fiquei amiga de todo mundo, na segunda semana a mãe dele já me chamava de filha.

Nunca se acostumaram com o meu nome, para eles eu era uma mulher enorme do nome confuso. E assim, de Stephania, me transformei na Estepe. No começo achei lindo, divertido, fofo: “Estepe, cunhada linda, mulherão da porra essa Estepe, venha Estepe, o jantar está pronto, Estepe, amada Estepe”.

Durou até o domingo perto do natal quando surgiu por lá, “só de  passagem”, a ex do Gabriel, uma moça magra, dos olhos enormes, nariz adunco, feia de rosto, mas das nádegas salientes e o flagrei olhando para ela, armado naquele ar blasé-vagaroso, as rugas dos olhos se contorcendo, o riso pronto a se armar.

Estou sempre duas doses acima na desconfiança. Num instante, no meu íntimo pensamento, ser chamada de Estepe se transformou num deboche. O ciúme a tudo desgasta, até mesmo o amor. Eu sempre fui muito desconfiada. O castigo dos céticos é duvidar de tudo, inclusive das próprias dúvidas. Fui levando o nosso caso por mais um tempo, mas o alerta estava definitivamente ligado: nas festas, nos bares, nas reuniões da família, sempre tinha outra mulher e lá estava aquele olhar sonso-blasé, o mesmo risinho do Gabriel, começando nas rugas dos olhos e descendo até os cantos da boca...

Como não percebi antes? Gabriel sempre jurou fidelidade, mas que mulher fraca é essa que acredita em juras de homem, perguntaria minha finada avó, a velha polaca. Eu que não sou, respondo para o vento.

E então a tatuagem deixou de fazer sentido, se tornou a raiz dos meus arrependimentos, uma prova desenhada de que fui enganada.

Queria voltar no tempo, quando a moto virou a primeira esquina, daria um toque nos ombros do Gabriel pedindo para voltar, sem lhe dar chances para retrucar, mantendo o rosto sério enquanto ajeitava os meus cabelos assoprados pelo vento.

- Como vai ser? – Perguntou o tatuador.

- Depois de Gabriel, escreva Garcia Marquez. Em cima do escudo do Flamengo, desenhe um coração bem grande e pinte-o completamente de preto. E nem senti dor enquanto o tatuador fez o seu trabalho.

O amor acaba. O meu acabou na última tragada de cigarro, o filtro ainda queimado nos dedos trêmulos, a bagana jogada na encruzilhada do lago frio lá fora, aquele mesmo lago que descarrega num rio em busca da cachoeira, a correnteza das águas borbulhantes, mas que nunca sorri.

Acabou. Não volta mais.

Sozinha novamente – suspirei – e depois mergulhei o meu corpo nas noites tormentosas, enrolada num cobertor, aprisionada no canto da masmorra, os pulsos envoltos em algemas de aço entre duas rochas, enquanto a garganta ressecada impede o soluço, mas não as lágrimas.

Elas rolam, rolam, rolam no meu rosto febril...

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